Este não é um texto de conteúdo religioso, nem pretende ter qualquer cariz teológico. Não discuto dogmas, milagres ou verdades de fé. Falo, antes de tudo, do exemplo de vida. Da força ética e humana de uma trajetória que atravessou séculos e inspirou algumas das pessoas mais admiráveis da história.
Eu idolatro Jesus Cristo pelo modo como viveu e pelo tipo de humanidade que encarnou. Pela simplicidade radical, pelo altruísmo sem cálculo e pelo amor ao próximo exercido de forma concreta, desinteressada e, muitas vezes, incômoda. Um amor que não escolhe destinatários convenientes, mas alcança pobres, doentes, marginalizados, traídos, inimigos e até aqueles que o condenaram.
Esse exemplo transbordou o próprio tempo histórico e serviu de referência para figuras que, cada uma a seu modo, tentaram viver a mesma lógica de doação. Pessoas que transformaram compaixão em ação, simplicidade em método e cuidado com o outro em projeto de vida. Todas inspiradas, direta ou indiretamente, pela mesma ideia fundamental: o valor de uma existência se mede pelo bem que ela produz.
Há também um aspecto profundamente revolucionário para sua época: a forma como Jesus enalteceu e dignificou as mulheres, rompendo com uma tradição estruturalmente machista. Em um contexto em que a mulher era frequentemente invisibilizada, ele a colocou no centro da experiência humana e moral. Maria, sua mãe, é apresentada como símbolo de coragem e dignidade. Maria Madalena surge como amiga leal, presente quando muitos haviam fugido. Não por acaso, são mulheres as primeiras testemunhas dos acontecimentos decisivos de sua história, um detalhe que desafia frontalmente a mentalidade social e jurídica daquele tempo.
Mas é talvez na sua postura contra a mercantilização da fé que meu apreço se torna ainda mais vigoroso. Jesus combateu de forma enfática os chamados mercadores do templo. Foi explícito, duro e inequívoco ao denunciar a transformação da fé em negócio, do sagrado em produto e da esperança alheia em fonte de lucro.
Ali, ele deixa claro que há algo profundamente errado, moralmente errado, em enriquecer à custa da crença, do medo ou da fragilidade das pessoas. Apropriar se do nome do Pai para mercancia, para acumulação de riqueza ou poder, é apresentado como desvio grave, incompatível com qualquer ética minimamente honesta.
Essa crítica é de uma atualidade quase desconfortável. Vivemos um tempo em que proliferam mercadores da fé modernos, que vendem milagres, prometem prosperidade, negociam bênçãos e transformam a espiritualidade em modelo de negócio altamente lucrativo. O que deveria ser consolo vira produto. O que deveria ser serviço vira exploração. O que deveria ser simplicidade vira ostentação. Nada parece mais distante do exemplo de Cristo do que a fé convertida em instrumento de enriquecimento ilícito, travestido de devoção.
Os próprios relatos bíblicos reforçam essa ética. Jesus lava os pés dos discípulos para ensinar que autoridade é serviço, não dominação. Multiplica o pão para que ninguém passe fome, não para exibir poder. Conta a parábola do bom samaritano para mostrar que o verdadeiro amor não reconhece fronteiras, identidades ou conveniências. Amar o próximo, ali, é amar sem esperar retorno, sem aplausos, sem lucro.
Nada disso exige fé para ser admirado. Trata se de uma proposta de humanidade profundamente atual. Em um tempo em que tantos idolatram mitos vazios, ególatras profissionais e narcisistas de redes sociais, figuras que vivem da própria imagem, da autopromoção e da validação constante, o exemplo de Cristo vai na contramão. Ele não buscou fama, não acumulou riquezas, não construiu palácios. Deixou um padrão ético exigente: a bondade como escolha diária, a simplicidade como forma de resistência e o cuidado com o outro como medida de grandeza.
Por isso, eu idolatro Jesus Cristo. Não como objeto de culto abstrato, mas como referência de vida. Porque, quanto mais barulhento, vaidoso e mercantilizado se torna o mundo, inclusive no campo da fé, mais revolucionária se revela a ideia de viver com simplicidade, honestidade, respeito e amor genuíno ao próximo.
Fernando Rocha é Procurador da República e Mestre em Direito Internacional.
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