O colapso: exaustão elevada à virtude. Por Bruno Montenegro Ribeiro Dantas.
Vivemos sob um paradoxo inquietante: jamais a humanidade dispôs de tantos instrumentos destinados a poupar esforço, otimizar o tempo e ampliar o conforto, e, no entanto, poucas épocas foram tão marcadas por uma sensação difusa e persistente de exaustão. O cansaço deixou de ser episódico para se converter em traço estrutural da vida contemporânea. As obrigações se acumulam em ritmo vertiginoso, o trabalho transborda para os espaços mais íntimos da existência, a parentalidade é convertida em projeto de alta performance, e o tempo, cada vez mais rarefeito e fragmentado, escorre como areia fina entre os dedos. Essa sociedade do cansaço, para lembrar Byang-Chul Han, não resulta de um colapso súbito, senão de um processo cultural longo e silencioso, cujos mecanismos foram profetizados, com impressionante lucidez, por obras da literatura. Nelas, encontramos não apenas o diagnóstico do mal-estar da modernidade, mas também as chaves interpretativas de uma forma peculiar de servidão: aquela que se exerce sob o signo da liberdade, na qual o imperativo do desempenho incessante se disfarça de
realização pessoal e a felicidade se reverte em meta compulsória e inalcançável.
A lógica que governa é a tônica da positividade obrigatória. O indivíduo é instado a se tornar um empreendedor de si mesmo, permanentemente engajado em processos de otimização pessoal, gestão de imagem e maximização de resultados. Cada interação social passa a ser compreendida como oportunidade estratégica. Cada gesto exerce o papel de um investimento simbólico. Não por acaso, essa gramática da performance encontra uma de suas expressões mais influentes na obra de Dale Carnegie3, cuja pedagogia das relações humanas ensina a administrar impressões, despertar desejos e converter vínculos em ativos. O sucesso, nesse horizonte, depende menos da autenticidade do que da eficácia relacional. Vive-se sob a pressão constante de ser agradável, disponível e influente, enquanto a vulnerabilidade, o conflito e a imperfeição humana são percebidos como falhas a serem ocultadas. Essa positividade compulsória cobra seu preço: um desgaste profundo, resultante da negação sistemática da ambivalência que constitui a experiência humana.
A mesma lógica aparece, de forma radicalizada, na distopia de Aldous Huxley. Em Admirável Mundo Novo, a estabilidade social é assegurada ao custo da profundidade subjetiva, por meio do condicionamento e da supressão do sofrimento. SOMA, a droga do contentamento perpétuo, encontra hoje equivalentes mais sutis, como o entretenimento incessante, a validação algorítmica das redes sociais e a moralização da felicidade como dever. Aprende-se a amar aquilo que se é obrigado a fazer, a desejar o que já foi previamente programado.
A recusa ao desconforto e a eliminação de qualquer negatividade produzem uma existência superficial, avessa à reflexão crítica. Nesse contexto, a verdade e a beleza
autênticas tornam-se ameaças à estabilidade. A racionalidade que emerge é a do cálculo, não a do sentido, aproximando-nos do pragmatismo de personagens como Luís Alves, de Machado de Assis, para quem a vida praticamente se reduz à vitória estratégica daqueles que sabem querer. A ambição, quando absolutizada, transforma as relações em alianças instrumentais e exaure o sujeito na luta permanente por reconhecimento e êxito.
A essa tirania do desempenho soma-se outro fator decisivo de desgaste existencial: o excesso de informação. Vivemos quase que em uma versão avançada da Biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges. Um universo saturado de dados, no qual a abundância paradoxalmente esvazia o sentido. A promessa de acesso irrestrito ao conhecimento converte-se em ruído permanente, exigindo atenção contínua, mas raramente permitindo compreensão profunda. A mente é bombardeada por fragmentos desconexos que impedem o recolhimento necessário à reflexão. Repete-se o drama de Funes, o Memorioso: a incapacidade de esquecer paralisa o pensamento. Pensar, como lembra Borges, é abstrair, generalizar, eliminar diferenças. Repleta de estímulos, a consciência acumula detalhes irrelevantes, mas perde o dom de sintetizar. A consequência não é somente o cansaço cognitivo, mas também uma crescente docilidade intelectual, que reduz a disposição para o questionamento crítico e abre espaço para narrativas simplificadoras que se impõem e assumem a roupagem da realidade.
Essa condição de esgotamento não se limita ao plano produtivo. Antes ela se manifesta também na luta cotidiana por sentido. Muitos de nós nos vemos engajados em
batalhas desproporcionais contra estruturas abstratas e impessoais, como as exigências do mercado, a burocracia ou os ideais inalcançáveis de equilíbrio e sucesso, para citar alguns exemplos. A luta assume frequentemente contornos quixotescos. Como Dom Quixote, lançado contra moinhos de vento que confunde com gigantes, insistimos em sustentar ideais de plenitude e justiça em um mundo governado pela utilidade. A colisão entre intenção e realidade produz frustração reiterada, alimentando a sensação de inutilidade do esforço.
No contexto brasileiro, a figura do idealista esmagado pela realidade ganha expressão particularmente trágica em Policarpo Quaresma8. Seu nacionalismo ingênuo e
sua crença na regeneração do país colidem violentamente com a corrupção, a violência e a indiferença do Estado. A trajetória que o conduz do entusiasmo à aniquilação simboliza o burnout moderno: a extenuação daqueles que se dedicam intensamente a um ideal, a um trabalho ou a uma causa, apenas para descobrir a desproporção brutal entre o indivíduo e as engrenagens do sistema. A derrota não decorre da falta de empenho, mas da assimetria estrutural que transfigura o esforço em estafa vã.
Após um olhar mais profundo, contudo, observa-se que o enfraquecimento das grandes narrativas de sentido e a hiperindividualização da vida social lançaram o sujeito na tarefa solitária de justificar sua própria existência. Dostoiévski captou com precisão esse dilema ao explorar o peso insuportável da liberdade absoluta. Quando não há instância transcendental que fundamente valores e escolhas, o ser humano se torna legislador de si mesmo, mas também carrega sozinho o fardo dessa responsabilidade. A solidão que daí decorre não é unicamente social, mas ontológica: o sofrimento de não poder amar, de não encontrar um sentido que ultrapasse o próprio eu.
Essa solidão aparece de forma pungente na voz infantil de Maria Carmem, autora da obra Se deus me chamar não vou9. Seu diário revela o abandono silencioso em um mundo adulto disfuncional e indiferente. A recusa expressa no título não é mera rebeldia, senão um gesto de autopreservação diante de exigências precoces de maturidade e resiliência. A criança solitária torna-se, assim, metáfora de uma sociedade que empurra seus membros à autossuficiência forçada, exigindo-lhes força onde deveria haver amparo.
Ao reunir essas imagens, me parece evidente que o arranjo civilizacional atual não se estrutura prioritariamente pela coerção externa, mas por uma tirania internalizada. Somos condicionados a amar nossa própria gaiola, a confundir liberdade com desempenho e felicidade com anestesia. Nesse particular, o grito do protagonista John, o Selvagem, em Admirável Mundo Novo, ressoa como uma recusa radical ao conforto administrado. Ao reivindicar o direito à dor, ao perigo e à imperfeição, ele afirma a necessidade de uma existência autêntica, não higienizada, capaz de suportar as contradições que constituem o ser humano.
Em arremate, é possível que o verdadeiro escândalo do nosso tempo não seja a saturação subjetiva em si, mas a naturalidade com a qual a aceitamos. Aprendemos a tratar a exaustão como virtude, o esgotamento como prova de valor, o colapso como etapa inevitável do sucesso. Não estamos cansados: estamos adestrados. A pergunta decisiva, portanto, não é como descansar melhor, mas por que insistimos em viver de modo a precisar desesperadamente de descanso. Enquanto buscamos técnicas de produtividade, terapias de adaptação e paliativos emocionais, deixamos intacta a engrenagem que nos consome.
Talvez a fadiga que nos atravessa seja mesmo e precisamente o sintoma dessa resistência silenciosa. A persistência da sociedade do desempenho, devo registrar, só encontra sobrevida diante de uma última linguagem disponível para dizer aquilo que já não ousamos formular: que algo está profundamente errado com a forma pela qual escolhemos existir.
Bruno Montenegro Ribeiro Dantas é Juiz de Direito, Mestre em Direito e Poder Judiciário pela ENFAM.
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