Semana Santa: o silêncio, a travessia e a redenção. Por Bruno Montenegro Ribeiro Dantas.
Em um tempo que fez da velocidade uma virtude e do conforto uma espécie de direito subjetivo, a liturgia cristã reaparece, ano após ano, para recordar uma verdade pouco sedutora: há dimensões da existência que não se resolvem, mas que precisam ser atravessadas.
A tradição cristã, dos textos catequéticos às meditações de Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, jamais tratou a fé como anestesia. Trata-a, senão, como exigência. É dizer: não se crê apenas para sentir paz, mas também para suportar a verdade. Por isso mesmo, eis uma definição que permanece sóbria e perturbadora: fé é conhecimento e confiança, ou a certeza daquilo que não se vê.
Sob esse ângulo, a cruz deixa de ser ornamento devocional e reassume seu lugar originário, próprio ao mais extremo rebaixamento e abandono. Eis a perplexidade da vez. O centro do cristianismo pauta-se na aceitação de uma derrota aparente. Para uma civilização obcecada por desempenho, imagem e êxito, a cruz permanece quase que como um constrangimento teológico e existencial.
Chesterton intuiu, com rara felicidade, que o cristianismo subsiste porque conserva unidos os contrários que o espírito moderno insiste em apartar: razão e mistério, sofrimento e esperança, humilhação e glória. E a Semana Santa desvela a pedagogia desses contrários. Enquanto a sexta-feira denuncia o colapso, o domingo revela a superação. Mas talvez o ponto decisivo resida nele mesmo, no sábado, esse território árido no qual o céu parece calado e a história, em algum grau, suspensa.
É no silêncio, afinal, que a fé perde a retórica e ganha densidade. A bem da verdade, a Semana Santa não elimina a pergunta sobre a dor. Ela a qualifica. Deus, ao não suprimir a cruz, atravessa-a. E, ao atravessá-la, confere ao sofrimento um sentido que não o banaliza, tampouco o glorifica, mas o inscreve na difícil gramática da redenção.
Que a travessia desta Semana Santa nos conduza, com humildade e profundidade, de volta ao essencial.
Bruno Montenegro Ribeiro Dantas – Magistrado e Doutorando em Direito
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