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Shakira bate público de Madonna em Copacabana, sem precisar queimar cruzes nem transar no palco. Por Aragão.

Dois milhões de pessoas lotaram a praia de Copacabana para ouvir um show de música. Dançaram e cantaram os hits memoráveis da Shakira. A qualidade do seu repertório foi suficiente para embalar as milhares de pessoas. Não precisou de lactação nem levantar bandeiras nem de polemizar em busca de engajamento e aplausos. — Sua música bastou.

Madonna nunca perdeu a oportunidade de transformar polêmica em produto. Queimou cruzes, hipersexualizou o palco e usou bandeiras de causas sociais como se fossem cenário de videoclipe. Tudo calculado para gerar manchete, engajamento e manter o nome circulando.

Shakira fez o caminho inverso. Subiu no palco em Copacabana e entregou exatamente o que uma artista deve entregar: música boa, dança de verdade e uma energia capaz de fazer dois milhões de pessoas esquecerem que estavam espremidas numa faixa de areia. Sem performance de escândalo. Sem ritual para a imprensa. Sem precisar de polêmica para justificar o ingresso.

— It’s a Material Girl!

Artistas com o alcance e a fortuna de Madonna poderiam usar esse poder para causas reais — combater à violência contra as minorias e promover sua inclusão no mercado de trabalho, projetos concretos de impacto social. Mas a performance calculada para atrair público, a nudez gratuita e zombar da religião dá mais ibope do que financiar uma ONG séria.

Shakira preferiu cantar. E ganhou. Encantou 200 milhões de brasileiros.

— Whenever, Wherever.

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A arte de engraxar os sapatos Por Luis Marcelo Cavalcanti

Ontem fiz algo que há muito tempo não fazia: engraxei meus sapatos. Dez pares, para ser exato. Lembrei imediatamente – e durante todo o tempo – de vovô Adalberto. Até senti sua presença, confesso. Normal. Afinal, assim como atender seus pacientes e tocar piano, engraxar sapatos era umas das coisas que ele mais gostava de fazer.

Parei para refletir sobre a simbologia por trás desse hábito. Lembrei de quando vovô me chamava para sentar ao seu lado e ajudá-lo com os sapatos. Eram muitos pares, a maioria brancos, como eram os sapatos dos médicos de antigamente. Depois vinham os marrons e os pretos. Eu o ajudava, ele me ensinava e me corrigia.

Extraio daquilo algumas lições:

1. É necessário “parar”, mesmo que seja apenas para engraxar os sapatos. E tem sido difícil “parar” nesses dias acelerados de uma vida desenfreada, ansiosos que estamos sempre por aprovação e consumo. Um dia já não é suficiente para tantas coisas que assumimos fazer. Mas, afinal, o que é de fato importante para nós?

2. É preciso limpar os sapatos, tirar a poeira, recuperar e renovar o brilho. E tudo isso se aplica a nós mesmos: quando fazemos isso com os sapatos, é como se fizéssemos com nossa alma.

3. Sempre é tempo de “cuidar” do que é nosso. Muitas vezes aquele sapato velho, que aparentemente não nos serve mais, só precisa de cuidado e atenção para brilhar de novo. Deveríamos fazer isso com tudo que está a nossa volta, especialmente com pessoas que amamos.

4. Não é preciso esfregar com força o sapato. Basta ter leveza e precisão para obter o brilho ideal. Segurar do jeito certo, lustrar com boa vontade, sem pressa, e sem preguiça. Ao me corrigir inúmeras vezes, Dr. Adalberto me ensinava que era preciso dar o melhor de nós em tudo que fazemos.

Enfim, antes de dormir e depois de colocar pra dormir meu pequeno João – o bisneto de Adalberto que, eu espero, possa se tornar também um eterno aprendiz de engraxate – decidi compartilhar com você essa reflexão, amigo leitor.

P.S. *Aprendi também que tenho sapatos pra cacete, e que minha coordenação com a mão esquerda é uma merda…*

Luis Marcelo Cavalcanti é Advogado e Procurador do Estado.

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Unimed Natal reforça apoio à cultura no RN e incentiva programação do Encanta Natal na Rampa

Com shows de Sueldo Soares, Nonato Negão, Quarteto Linha e Sergynho Pimenta, evento aposta em música e convivência em um dos cartões-postais de Natal.

A Unimed Natal, reconhecida como a empresa que mais apoia a cultura no Rio Grande do Norte, é uma das incentivadoras do projeto Encanta Natal – Cultura ao Entardecer, que ganha nova edição no próximo sábado (2), no Complexo Cultural Rampa. A proposta une música, paisagem e convivência em um dos cenários mais simbólicos da cidade, com o pôr do sol dando lugar a uma noite marcada pelo samba e Axé Music.

A programação reúne nomes conhecidos do público. Sueldo Soares e Nonato Negão sobem ao palco juntos novamente, retomando uma parceria que já conquistou plateias, sob a direção artística do maestro Chico Betoven. Em seguida, o Quarteto Linha se junta a Sergynho Pimenta, em um encontro que mistura diferentes influências dentro do samba e do axé.

Com início às 16h e acesso gratuito, o evento aposta na ocupação qualificada de espaços públicos, valorizando a cultura local e promovendo experiências ao ar livre para todas as idades. A ambientação da Rampa, às margens do rio Potengi, contribui para um clima que começa leve, ao entardecer, e evolui para uma programação musical mais intensa ao longo da noite. Os ingressos podem ser retirados antecipadamente no Restaurante Petrópolis, das 11h às 15h.

Para o diretor-presidente da Unimed Natal, Dr. Márcio Rêgo, o incentivo a iniciativas como essa faz parte do compromisso da cooperativa com a qualidade de vida da população. “Acreditamos que saúde também passa pelo acesso à cultura, ao lazer e à convivência. Apoiar projetos como o Encanta Natal é contribuir para uma cidade mais viva, com oportunidades de encontro e bem-estar para as pessoas”, afirma.

Além da programação cultural, o evento também abre espaço para um gesto de solidariedade. Quem puder, é convidado a levar 1 kg de alimento não perecível, fortalecendo uma corrente de apoio a quem precisa. A proposta é unir música, convivência e cuidado coletivo em uma mesma experiência.

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Natal recebe o show “Três vozes para celebrar – onde a oração se faz canção” no Teatro Riachuelo

O palco do Teatro Riachuelo será cenário de uma noite especial de fé e música no próximo dia 28 de maio, com a realização do show “Três Vozes para Celebrar – onde a oração se faz canção”. O espetáculo reúne três grandes nomes da música católica brasileira: Eliana Ribeiro, Suely Façanha e Adriana Arydes.

Reconhecidas por suas trajetórias marcadas pela evangelização por meio da música, as artistas prometem emocionar o público com um repertório que reúne grandes sucessos de suas carreiras, canções de louvor e momentos de profunda espiritualidade.

*A abertura do evento ficará por conta do padre Carlos Sávio, com o momento especial *“Conexão e Fé”,* uma experiência de oração e adoração que marcou profundamente milhares de pessoas durante a pandemia, por meio de suas lives no Instagram. Será um momento único de espiritualidade e encontro com Deus, preparando o público para a noite de louvor.

A proposta do show é proporcionar uma experiência única de encontro com a fé, por meio de vozes que marcaram gerações dentro da música católica.

Com produção cuidadosamente pensada para envolver o público, “Três Vozes para Celebrar” se apresenta como uma oportunidade de vivenciar uma noite de louvores, conduzida por três das mais expressivas cantoras do segmento no país.

Os ingressos estão disponíveis, exclusivamente, na bilheteria do teatro e pelo site Uhuu.com.

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A Impunidade como Desvalorização da Honestidade. Por Fernando Rocha.

A impunidade não é apenas ausência de punição. É um enunciado semântico que a sociedade pronuncia sobre o valor relativo de seus membros. Quando o corrupto escapa ileso e o honesto suporta os custos da legalidade, a mensagem transmitida não é neutra: ela diz, com a eloquência própria dos fatos, que a honestidade é uma desvantagem competitiva, um peso que só os ingênuos carregam.

Durkheim ensinava que o direito é o símbolo visível da moralidade coletiva. Nas sociedades modernas, onde a consciência comum se fragmenta e perde a intensidade das comunidades tradicionais, o ordenamento jurídico assume a função de tornar legível aquilo que a sociedade ainda acredita, proíbe e venera. A norma jurídica não é apenas regra técnica de conduta: é a tradução institucional dos valores que uma coletividade considera suficientemente sérios para proteger com a força do Estado. A pena, nessa leitura, não serve primariamente ao condenado. Ela serve aos que observam. Ela reafirma, diante de todos, que determinada conduta é intolerável e que a consciência coletiva permanece viva e operante.

É precisamente por isso que a impunidade produz um dano que vai muito além do caso concreto. Quando uma nulidade processual liberta um corrupto, quando uma prescrição extingue a punibilidade de quem desviou recursos públicos, quando recursos protelatórios transformam o julgamento em miragem, o efeito simbólico é devastador: o direito, que deveria ser o espelho da moralidade social, passa a refletir sua deformação. A mensagem que chega ao cidadão comum não é a de que houve um problema técnico-processual. A mensagem é que o sistema protege os que têm poder para manipulá-lo.

Nesse contexto, a corrupção impune no Brasil não produz apenas um dano patrimonial mensurável aos cofres públicos. Ela opera como um desincentivo sistemático à conduta honesta. O servidor que recusa o suborno vê o colega que o aceitou prosperar sem consequências. O empresário que se recusa a pagar propinas perde contratos para o concorrente que os paga e jamais responde por isso. O contribuinte que declara corretamente seus impostos financia um Estado que não consegue punir quem o saqueia. Em cada uma dessas situações, a racionalidade prática sugere que a honestidade é, no mínimo, uma escolha custosa, e, no limite, uma forma de ingenuidade que o mundo real não recompensa.

Durkheim chamaria isso de anomia: não a ausência de normas, mas a dissociação entre as normas formalmente proclamadas e as expectativas reais de comportamento que a experiência social efetivamente ensina. Quando essa dissociação se instala, a consciência coletiva não desaparece de imediato; ela apodrece lentamente. Os indivíduos continuam a conhecer as regras, mas deixam de acreditar que elas serão aplicadas com igualdade. E quando a igualdade perante a lei se torna ficção, a lei perde sua autoridade moral, que é a única autoridade que verdadeiramente importa numa sociedade democrática.

O problema das nulidades que salvam corruptos no Brasil não é, portanto, apenas um problema de eficiência do sistema de justiça criminal. É um problema de semântica social. Cada decisão que absolve tecnicamente quem era materialmente culpado envia uma mensagem que a sociedade decodifica com precisão: a lei tem brechas, e o acesso a essas brechas é proporcional ao poder de quem está sendo julgado. Esse enunciado, repetido ao longo de décadas, sedimenta na cultura brasileira uma convicção corrosiva: de que a honestidade não é um valor universalmente protegido, mas um privilégio que os ingênuos praticam e os espertos evitam.
A consequência mais grave dessa dinâmica não é a proliferação do desonesto. É a progressiva desmoralização do honesto. A impunidade sistêmica não apenas estimula a corrupção; ela envergonha a integridade. Coloca o cidadão que cumpre a lei numa posição de inferioridade prática diante de quem a viola com sofisticação. E uma sociedade que não consegue honrar simbolicamente a honestidade, que não consegue tornar a integridade um caminho racionalmente atraente, está corroendo as próprias fundações sobre as quais qualquer projeto coletivo poderia ser construído.

 

Fernando Rocha é Procurador da República e Mestre em Direito Internacional

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Sem vocês esse mundo não seria igual. Por Bruno M. Ribeiro Dantas.

A verdade imperativa que intitula este ensaio, frequentemente emprestada à autoria de Pablo Neruda, mas lavrada por Alfredo Cuervo, aplica-se, hoje, à perfeição. Neste Dia da Mulher, a melhor homenagem talvez seja reconhecer o óbvio que tantas vezes foi negado: a vida, como a conhecemos, tem voz, cor, cuidado e coragem de mulher. Não como adorno de calendário, mas como eixo silencioso que sustenta rotinas, famílias, instituições e sonhos. Onde falta a presença feminina, falta também uma parte essencial do ser humano: a capacidade de recomeçar, e de resistir.

Durante muito tempo se vendeu a caricatura da guerra dos sexos, como se homens e mulheres fossem exércitos rivais condenados ao conflito. Mas o mundo maduro vem aprendendo que a história não melhora somente pelo confronto, mas, antes, pelo reconhecimento. Novos tempos reclamam menos disputas e mais parceria; menos rótulos e mais escuta. A mulher demonstra, dia após dia, o seu valor. Não por concessão, mas por evidência. Na competência, na intuição, e na delicadeza que não é fraqueza — mas é força educada e que pode ser sutil.

E se a vida tem algum critério de verdade, ele não está no brilho das vitrines, senão na qualidade dos vínculos. O que vale a vida são os afetos, disse, um vez, o min. Barroso. O valor está no gesto que ampara, na palavra que não humilha, ou na mão que fica quando tudo conduz à despedida. Por isso, hoje, os júbilos também se convertem em compromisso: que a igualdade seja prática, e que o respeito seja irrestrito.

Percebi, confesso, que sempre assistiu razão a Vinicius de Moraes: e que “tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.” Parabéns, mulheres. Sem vocês, realmente, esse mundo não seria igual.

Bruno Montenegro Ribeiro Dantas – Juiz de Direito – Doutorando em Direito

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Universidade de Oxford: 78% dos brasileiros consomem notícias por meios digitais. TV aberta segue em queda.

— O Brasil virou social-first: a notícia nasce nas plataformas.

O Digital News Report 2025, produzido pelo Reuters Institute da Universidade de Oxford — uma das pesquisas mais abrangentes do mundo sobre consumo de notícias — mostra que as principais portas de entrada para informação no Brasil são plataformas digitais: Instagram, YouTube e WhatsApp.

Esse fenômeno levou pesquisadores a descrever países como o Brasil como ambientes cada vez mais “social-first” — ecossistemas informativos nos quais a principal porta de entrada para notícias ocorre dentro das redes sociais e plataformas digitais.

O próprio relatório observa que o consumo de notícias pela televisão continua em trajetória de queda, pressionado pelas redes sociais e pela crescente popularidade das plataformas digitais.

Entre os grandes veículos tradicionais, a Globo aparece com o maior índice de desconfiança, com 29% dos entrevistados afirmando não confiar em suas notícias.

— Quanto tempo o caro leitor passa em frente à TV em comparação com o tempo que passa no mundo digital?

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Maria de Fátima 07 mar 2026

👏👏👏👏

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Reputações manchadas, de repente. Luis Marcelo Cavalcanti.

 

Meu amigo Aragão deu o mote,
eu pego e embalo o repente
Pois tem gente até que mente
Pra’atacar reputação

Oxford fez pesquisa,
provocou reflexão
Por que é que tanta gente
Só fala sob emoção?
Tem até gente que mente
Pra’atacar reputação

Cientista que estuda,
Tanto até que nem pisca
Descobriu na engenharia
A raiva que serve de isca
Quem curte, logo se pica
De tão doente emoção
Tem até gente que mente
Pra’atacar reputação

O nome é até complicado
Em inglês se diz “rage-baite”
Com palavra tão bonita
Há até até quem se deleite
Mal sabe o ignorante
Pra que serve o palavrão
Tem até gente que mente
Pra’atacar reputação

No passado, foi dinheiro
Mal contado por Revista
Um certo homem de honra
de conduta sempre à vista
Chamado Ibsen Pinheiro
Aclamado pelo povo,
julgado pela nação
Tem até gente que mente
Pra’atacar reputação

Pura maldade da Veja
Na capa o chamou: Ladrão
Mesmo avisada do erro
Mandou seguir com a impressão
Trocaram as contas em dólar
Um mil que virou milhão
Tem até gente que mente
Pra’atacar reputação

Agora foi Ruth dos Santos
Auditora de profissão
Trinta e dois anos servindo
Foi vítima do Xandão
Com nome e sobrenome
Expostos em televisão
Tem até gente que mente
Pra’atacar reputação

Mas dona Ruth é dos Santos
De nome e de proteção
O outro eu já não digo
Que me sobra’intimação
Vá de retro coisa ruim
Seu lugar é na prisão
Tem até gente que mente
Pra’atacar reputação

Biografia é coisa cara
longa é sua construção
Merece ser respeitada
Do blogueiro ao cidadão
Pra não se ver mutilada
A imagem de um inocente
Tem até gente que mente
Pra’atacar reputação

Vou parando por aqui
que raiva é isca mortal
Na briga do bem contra’o mal
Da Viviane à Patrícia
Não pode a mídia digital
Se transformar em milícia
Quem bate logo esquece
Quem apanha esquece não
Tem até gente que mente
Pra’atacar reputação

Avisa o mestre Karnal
Ódio é sentimento pequeno
Ter raiva é tomar veneno
Esperando n’outro a infecção
Tem até gente que mente
Pra’atacar reputação

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O algoritmo e o ódio nosso de cada dia. Por Aragão.

Há mais de 500 anos a Oxford University faz uma pesquisa para eleger um termo que melhor explica o ano que passou. Em 2025, o termo foi “Rage-Bait” — isca de raiva — numa tradução livre.

A Oxford analisa milhões de artigos, textos, posts, vídeos, para entender o que está mobilizando as pessoas. Em 2024, o termo foi “Brain rot”— podridão mental. A internet queria apenas capturar sua atenção pela curiosidade mas agora quer sequestrar sua emoção.

Não compete pela sua atenção mas pela sua raiva. Produzindo conteúdo criado de propósito para te deixar irado. Provocar raiva porque a raiva engaja. Milhões de veículos de comunicação estão produzindo conteúdo exclusivamente para manipular a sua raiva para que se possa vender mais. — O amor é vida mas a raiva vende.

É a engenharia do conflito usada para construir engajamento e destruir reputações.

O conteúdo que mais circula não é o mais complexo. É o mais inflamável.

Ele simplifica temas difíceis. Recorta contextos.

Personaliza conflitos. Transforma divergência em guerra. Imaginem em ano eleitoral.

— A dopamina move montanhas.

Você se sente bem quando seu viés de confirmação é atendido a todo instante ou quando, dentro de uma bolha, curtem exatamente o que você pensa. Mas isso tem um preço. A intolerância. E a intolerância é o ovo da serpente que só faz nascer mais violência.

Nem todo conteúdo indignado é manipulação. A crítica é necessária. A denúncia é essencial. A democracia exige confronto. Mas quando a indignação deixa de ser reação e passa a ser estratégia de negócio, ela deixa de ser expressão. Vira produto.

A pergunta não é se a raiva vende. Vende. Mas a que preço? Até quando vamos aceitar que o combustível do debate público seja a irritação diária?

O primeiro passo é você identificar quando querem acionar esse sistema em você. O algoritmo vai atender ao que te estimula. Sinalize para ele o que gostaria de ver. É só engajar com o conteúdo que você acredita possa ser melhor para seu bem estar e não se contente com a dopamina barata.

— Recuse a isca.

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Carnem levare: do Carnaval à Quaresma

A festa — qualquer festa — costuma prometer o que a rotina, por definição, não entrega: leveza. O Carnaval, com sua democracia sonora, instala por alguns dias uma república provisória do corpo e do riso, em que a pertença parece simples e a vida, menos grave. Mas o esquecimento é um contrato de curtíssimo prazo. Na quarta-feira, a música não termina: ela apenas encerra o expediente e devolve a cada um aquilo que sempre esteve lá — a própria consciência, sem bateria de apoio.

A Quaresma sobrevive por tocar numa verdade elementar e, justamente por isso, incômoda: não somos só desejo; somos também limite. Santo Agostinho falou do coração inquieto — e talvez a inquietação seja o nome civilizado para o nosso apetite por sentido. Pascal desconfiava das distrações: o ruído nem sempre é alegria; por vezes é fuga, com luz de palco e pouca convicção. A Quaresma, ao contrário, é a recusa da fuga: é baixar o volume do mundo para escutar o que, em nós, insiste.

E então resta a pergunta — a mais difícil, porque não se resolve com aplausos: se a alegria depende de estímulo constante, seria, ela própria, alegria ou dependência? Schopenhauer, com seu diagnóstico sem anestesia, lembraria que muita sociabilidade nasce da incapacidade de suportar a solidão — e, nela, a própria companhia. Quando o som é perde o ânimo, não é o mundo que empobrece; é o sujeito que se revela.

Por isso mesmo, o jejum, a oração e a caridade não deveriam ser compreendidos como ritualismos religiosos, senão como gramática da liberdade. Jejuar é reaprender o governo de si — em tempos nos quais se vende impulso e rotulam-no como autenticidade. Orar não é magia: é recolocar a vida no centro, trocando a ansiedade por direção. E a caridade, como forma mais concreta de espiritualidade, retira o outro do papel de figurante e o devolve à condição de pessoa.

No fim, a despedida do Carnaval não condena a festa, antes restaura a medida. A vida não pode ser apenas um intervalo luminoso entre duas distrações.

Com crença ou sem fé, a Quaresma preserva uma certeza decisiva: o olhar interior é primordial — porque, quando o ruído cessa e a fantasia se recolhe, é no silêncio que se decide quem se é. É dizer: ninguém atravessa o mundo plenamente sem antes atravessar a si mesmo.

Bruno Montenegro Ribeiro Dantas é Juiz de Direito e Mestre em Direito e Poder Judiciário pela ENFAM.

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