O que você imagina quando pensa em negligência? Geralmente pensamos em situações extremas: uma criança sem cuidados básicos, um idoso abandonado ou alguém privado de necessidades essenciais.
Mas existe uma forma de negligência muito mais silenciosa e, justamente por isso, mais difícil de perceber: a negligência emocional.
Ela acontece quando sentimentos são ignorados, minimizados ou tratados como algo sem importância. E o mais curioso é que, muitas vezes, isso ocorre de forma socialmente aceita.
Quantas pessoas já ouviram frases como “engole o choro”, “isso é frescura”, “você precisa ser forte” ou “tem gente em situação pior”? Embora frequentemente sejam ditas com boa intenção, elas transmitem uma mensagem perigosa: sentir parece ser um problema.
O resultado aparece na vida adulta. Pessoas que cuidam de todos, mas esquecem de si mesmas. Pessoas que seguem funcionando, produzindo e sorrindo enquanto carregam dores que ninguém vê.
Nossa sociedade normaliza o esgotamento. Descansar gera culpa. Dizer “não” parece egoísmo. Admitir fragilidade é confundido com fraqueza.
Há mais de dois mil anos, Aristóteles falava sobre a importância da justa medida, o caminho entre a falta e o excesso. Talvez a saúde mental tenha muito a ver com essa busca. Trabalhar sem se abandonar. Cuidar dos outros sem esquecer de si. Produzir sem transformar o cansaço em estilo de vida.
Em uma sociedade que nos empurra para os extremos, cuidar da saúde mental pode ser justamente o exercício de encontrar esse equilíbrio. Porque o sofrimento raramente surge de uma vez. Ele costuma se instalar aos poucos, quando nos afastamos demais de nós mesmos.
Beth Varela é psicóloga clínica.
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