A grande conveniência do nosso sistema educacional é que ele não foi feito para formar cidadãos pensantes, mas para moldar profissionais obedientes. Temos excelentes escolas que ensinam a passar no Enem, mas não a questionar o mundo. O jovem aprende a Fórmula de Bhaskara, mas não entende os juros que destroem sua família endividada. Decora o Teorema de Pitágoras, mas não enxerga o abismo entre promessas políticas e a realidade social.
Esse condicionamento covarde não poupa ninguém. Nas classes mais altas, até os profissionais mais bem-sucedidos seguem o mesmo roteiro: leem apenas livros técnicos, focam em se destacar em suas áreas específicas, mas raramente se aventuram por filosofia, história ou ciência política. Tornam-se exímios especialistas, mas limitados cidadãos. — Você pode ganhar dinheiro mas continua sendo o rei do lixo. Afinal, a sociedade precisa se levantar por inteiro.
Já as classes mais baixas, sem acesso nem a essa formação técnica, ficam presas a uma alienação cultivada. São embaladas por frases de efeito, raciocínios rasos e um caldo cultural regado a álcool, feriados, futebol e músicas que celebram sexo e a vida desregrada. As redes sociais completam o ciclo, despejando títulos inflamados, discursos de ódio e fake news travestidas de coragem. Confunde-se intolerância com convicção, ignorância com autenticidade.
E como essa massa pode se defender? Como identificar os padrões históricos que se repetem diante dos nossos olhos se sua visão da história foi moldada por filmes tendenciosos no cinema? Como cobrar mudanças se não houve preparo mínimo para interpretar a realidade? E o pior é que tudo isso não é acidente — é projeto. Manter a educação rasa garante um povo dócil, manipulável e dividido.
O Brasil segue, assim, sem educação de qualidade, preso à lógica do colono: formar mão de obra para trabalhar, consumidores para gastar e eleitores para obedecer. O que não se quer é formar pensadores. Porque pensadores questionam, reconhecem padrões, exigem mudanças.
Talvez seja essa a grande tragédia brasileira: não nos falta inteligência, nos falta consciência. E sem consciência, o Brasil seguirá sendo uma colônia.
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