Bom dia, dona Maria, que está aí no ponto de ônibus tentando entender por que o preço do arroz subiu, mas a moralidade desceu!
Pois é. Eu estava aqui pensando com os meus botões – que são poucos, mas funcionam melhor que certas instituições – e imaginei a seguinte cena: o Barão de Montesquieu, aquele francês que desenhou essa coisa bonita chamada “Separação de Três Poderes”, levantando do túmulo, olhando para o Brasil e tendo uma síncope de riso. Uma gargalhada daquelas de perder o fôlego!
Sabe por quê? Porque agora inventaram a jabuticaba jurídica suprema: o “autocontrole” para evitar fiscalização.
Veja essa, meu caro leitor! É genial. É fantástico. O sujeito diz: “Olha, não precisa ninguém me fiscalizar não, viu? Eu mesmo me fiscalizo. Eu tenho autocontrole!”
Ah, faça-me o favor! Me ajuda aí!
É a mesma coisa que botar a raposa tomando conta do galinheiro e ela assinar um termo de compromisso dizendo: “Fiquem tranquilos, galinhas. Eu terei autocontrole gastronômico. A porta pode ficar aberta, mas eu prometo que não vou morder ninguém.”
Aí eu pergunto, com a simplicidade de quem não usa toga, mas usa o cérebro: quem não deve, não teme! Não é isso que a gente ensina para criança pequena? Se o boletim tá azul, o menino mostra pro pai com orgulho. Se tá vermelho, esconde embaixo do colchão.
Agora, vem essa conversa mole, esse papo furado de rodapé de livro jurídico, dizendo que evitar a fiscalização externa é “preservar a democracia”.
Pera lá! Preservar a democracia ou preservar o cargo? Preservar as instituições ou preservar o compadrio?
A democracia, meu amigo, não é feita de redomas de vidro onde ninguém pode tocar. Democracia é vidraça! É transparência! Se um poder não pode olhar o que o outro faz, isso não é República, é Olimpo. É terra de deuses intocáveis.
Dizer que fiscalização é “ataque” é uma falácia orquestrada. É um escudo de papelão pintado de ouro. Eles gritam “Democracia!” enquanto trancam a porta do cofre e engolem a chave.
Montesquieu dizia que “o poder deve frear o poder”. Ele não disse “o poder deve se autoanalisar no espelho e dizer que está lindo”.
Essa blindagem da autoproteção é o cúmulo do cinismo. É o compadrio dos cúmplices do desmando, onde uma mão lava a outra, e as duas tentam tapar os olhos da população.
Então, excelências, menos “autocontrole” retórico e mais satisfação ao povo, que é quem paga a conta da luz, do ar-condicionado e da lagosta de vocês.
Toc, toc, toc. Tem alguém aí ou só tem ego de deuses?
Alexandre Aragão é advogado, com especialização em direito tributário pelo IBET e em direito empresarial pela FGV/RJ
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