É conveniente a narrativa de que o PCC, essa facção — ou melhor, essa multinacional com operações em vários países — seja comandado de dentro das penitenciárias por chefes como Marcola, que caminham no pátio dos presídios federais com a camisa pendurada nos ombros e coçando a barriga.
Conveniente porque reduz um problema de proporções multinacionais a uma questão de presídio. É mais fácil acreditar que basta isolar líderes para desmontar o império. Mas essa é uma meia-verdade — e, como toda meia-verdade, serve para encobrir o essencial.
Certamente, os líderes presos têm força e poder, sobretudo para comandar o braço violento. Mas uma organização que movimenta dezenas de bilhões não se sustenta apenas em ordens vindas de dentro das cadeias. Por trás dela existe uma engrenagem que vai muito além da violência das ruas e das grades dos presídios. Uma estrutura que requer lideranças experientes, com trânsito no meio político e no judiciário, apoiada por advogados sofisticados, contadores especialistas em engenharia financeira e empresários com presença em grandes mercados.
A megaoperação “Carbono Oculto” revelou o tamanho desse império:
• R$ 52 bilhões movimentados via postos de combustíveis (mais de mil unidades em 10 estados) e R$ 46 bilhões por fintechs atuando como “bancos paralelos”;
• 40 fundos de investimento, com R$ 30 bilhões sob gestão, usados para ocultar patrimônio — de usinas de etanol e caminhões a fazendas, imóveis de luxo e até terminal portuário;
• Uma força-tarefa de 1.400 agentes, 350 mandados e o bloqueio de mais de R$ 1 bilhão em bens, chegando à Faria Lima — o coração financeiro do país.
O mito conveniente de Marcola precisa ser rompido. Ele não é a face única, nem a parte mais importante. É apenas o símbolo visível de um sistema que depende de lideranças externas, em liberdade, para operar como uma corporação multinacional. Enquanto isso não mudar, bilhões continuarão a circular — às custas da democracia e da economia formal.
— Os verdadeiros líderes estão em liberdade incondicional.
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