Estamos virando uma geração que quer emagrecer sem mudar hábitos, ser feliz sem enfrentar frustrações e resolver crises com salvadores da pátria?
Somos a geração dos atalhos…
Sempre seduzidos pelo menor esforço. Seja o salvador da pátria que promete resolver sozinho problemas que levaram décadas para se formar. O amor à primeira vista que dispensaria convivência, diálogo e maturidade emocional; o antidepressivo que promete paz e alegria; ou a dieta milagrosa que garantiria transformação sem disciplina. Em todas essas narrativas existe um elemento comum: a promessa de redenção sem processo.
— Esse é um problema que a sociedade insiste em empurrar com a barriga… mas bem sequinha.
O Mounjaro, para muitos, deixou de ser tratamento e passou a ser símbolo de uma fantasia contemporânea: a possibilidade de mudar o corpo sem enfrentar o estilo de vida que construiu aquele corpo. É como se a seringa pudesse negociar com a biologia aquilo que a rotina insiste em ignorar.
Medicamentos que alteram o metabolismo, o apetite e a resposta hormonal não são neutros. Eles exigem adaptação alimentar, acompanhamento clínico e, principalmente, mudança comportamental para que os resultados sejam sustentáveis. Quando utilizados de forma recreativa, sem prescrição médica, e como substitutos de hábitos — e não como aliados deles — o risco de efeito rebote, perda de massa muscular, dependência psicológica e complicações médicas aumenta. Pancreatites e mortes associadas ao uso do medicamento já começam a ser noticiadas.
Certa vez vi um amigo enfrentar uma enorme torta de chocolate e, diante do meu olhar de espanto, respondeu com naturalidade:
— Não tem problema. Mais tarde tem Mounjaro.
— Tá triste? Venvanse. Nervoso? Rivotril. Gordo? Mounjaro. Crise no país? Salvador da pátria.
O problema surge quando passamos a acreditar que é possível eliminar completamente o custo das transformações. A biologia, a psicologia e a própria história costumam demonstrar o contrário. — Um dia, a conta chega.
Porque nenhuma caneta injetável foi capaz, até hoje, de substituir o processo de carregar — e compreender — o peso das próprias escolhas.
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