O professor Severino Lopes da Silva faleceu em 2002. Neste 2 de junho de 2026, quando o hospital que ele fundou completa setenta anos, tomamos a liberdade de imaginar o que ele diria ao cidadão natalense se pudesse, por um instante, voltar à sua mesa e escrever esta carta.
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Meu nome é Severino Lopes da Silva. Nasci em Macaíba, em 12 de setembro de 1924. Fui médico psiquiatra e Professor de Medicina da UFRN. E em 2 de junho de 1956, fundei em Natal o primeiro hospital psiquiátrico do Rio Grande do Norte, a Casa de Saúde Natal.
Escrevo a você, que mora nesta cidade, que paga seus impostos, que cuida da sua família e que talvez nunca tenha ouvido falar de mim nem do hospital que eu idealizei. E está tudo bem. Hospital bom é aquele que você só conhece quando precisa – e que está lá quando você chega.
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Eu me formei na Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira do Brasil, e fui para a Espanha me especializar em psiquiatria. Sou filho intelectual da escola alemã, que ensinava uma coisa que quase ninguém praticava naquela época: não se trata a doença, trata-se o ser humano. A mente, o corpo, a história, o que levou a pessoa até ali. Voltei para Natal com essa convicção e com um plano.
Comecei com dois colegas sócios. Com seis meses, o primeiro desistiu. Com dois anos, o segundo também. Fiquei sozinho com um hospital recém-nascido e sem dinheiro para mantê-lo de pé.
Então eu fiz o que sabia fazer: fui à luta. Transformei a Casa de Saúde Natal em sociedade anônima, subi numa Simca Jangada e saí pelo Rio Grande do Norte inteiro vendendo ações. Município por município. Com minha esposa Isabel, minha cunhada Tica e meu filho Carlos, ainda menino pequeno, no banco de trás. Foi o povo do Rio Grande do Norte que financiou aquele hospital. Antes de qualquer governo, o povo acreditou.
Começamos na Rua Sachet, 482, na Ribeira. Ficamos lá dez anos. No final de 1966, mudamos para o prédio que existe até hoje, no bairro hoje chamado de Barro Vermelho. Erguemos aquele prédio aos poucos, tijolo por tijolo. Hoje são mais de 7.800 metros quadrados de área construída.
Desde o primeiro dia, a Casa de Saúde Natal funcionou do jeito que eu aprendi na Europa: equipe completa. Com Médicos Psiquiatras, Médicos clínicos, enfermagem, psicologia, assistência social, praxiterapia (que se chama hoje terapia ocupacional) com diversas oficinas, horta terapêutica, musicoterapia, ecoterapia. Nos jornais de 1958 e 1959 você encontra reportagens sobre esse trabalho. Quando falam hoje em “reforma psiquiátrica” como se fosse uma invenção recente, eu peço licença para discordar. Já fazíamos isso na década de 1950.
Durante mais de quatro décadas, eu dirigi esse hospital. Vi a assistência à saúde psiquiátrica avançar, vi medicamentos transformarem a vida de pacientes que antes não tinham esperança, vi famílias inteiras se reconstruindo porque alguém recebeu o tratamento certo na hora certa. Também vi o Brasil criar um movimento para fechar hospitais psiquiátricos – não por evidência científica, mas por ideologia. E lutei contra isso enquanto pude.
Em 2002, eu parti. Mas o hospital ficou.
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Eu não estava mais lá quando o cerco se fechou de vez. Se o Brasil tinha mais de 360 hospitais psiquiátricos e 122 mil leitos na década de 1990, nos anos seguintes um verdadeiro caos se instaurou na saúde psiquiátrica: diárias congeladas, exigências impossíveis sem contrapartida financeira, uma política desenhada para estrangular. Hoje restam pouco mais de 56 hospitais e cerca de 11 mil leitos. A população foi de 174 milhões para mais de 205 milhões. Os números falam por si.
O nosso hospital sobreviveu. A diretoria tomou uma decisão que eu teria apoiado se estivesse por lá: transformou a instituição em filantrópica, através da Sociedade Professor Heitor Carrilho. Fizeram novos contratos, novos convênios. Hoje são 24 planos de saúde. A remuneração continuou abaixo do custo – às vezes 25%, 30% do que se gasta para o tratamento global do paciente. Mas não fechamos.
Em 2022, aconteceu algo que me encheria de alegria. A Prefeitura do Natal, obrigada por uma ação civil pública, precisaram realocar 30 leitos clínicos da Maternidade Araken. Não tinham onde colocar. Procuraram o nosso hospital – que até então só cuidava de saúde mental. A equipe hesitou, como é prudente hesitar diante do que não se conhece. Mas aceitou. Em menos de 50 dias, estava tudo pronto. E assim foram abertos novos leitos clínicos, escrevendo um novo capítulo na assistência à saúde da nossa cidade. O que custava 5 milhões de reais ao mês ao município passou a custar 1 milhão e duzentos mil. O Ministério Público visitou três vezes e atestou: o melhor serviço na assistência do SUS de Natal, entre convênios e particulares. Todas as enfermarias climatizadas, camas Fowler elétricas, a mesma qualidade para o paciente do SUS, do convênio ou do particular.
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Eu não escrevo esta carta para pedir aplausos. Médico que faz o que tem que fazer não espera aplauso. Escrevo para dizer a você, cidadão de Natal, uma coisa que talvez ninguém tenha dito: na sua cidade existe um hospital de excelência em psiquiatria e em clínica geral, com setenta anos de serviços prestados, construído por um potiguar, financiado pelo povo do Rio Grande do Norte e que nunca fechou as portas.
Eu o construí para você. Para a sua mãe, o seu filho, o seu vizinho. Para o dia em que a vida apertar e alguém precisar de um lugar que cuide de gente como gente.
Que você nunca precise de nós. Mas se precisar, o hospital vai estar lá – como está há setenta anos.
Professor Severino Lopes da Silva
Macaíba, 1924 – Natal, 2002
Fundador do Complexo de Saúde Professor Severino Lopes

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