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Estadão: Rede de propinas que pega prefeito de Mossoró usou conta ‘laranja’ de garota menor de idade, diz PF.

Saiu hoje (09/02) no Jornal Estado de São Paulo (ESTADÃO), uma matéria escrita por Fausto Macedo e Felipe de Paula. O conteúdo é realmente impactante. Acompanhe:

Filha de empresários suspeitos de operar um esquema de propinas e fraudes em licitações no interior do Rio Grande do Norte – alvos da Operação Mederi – teve a conta bancária utilizada para lavagem de dinheiro e sonegação fiscal, segundo investigadores; estudante recebeu R$ 427 mil em um ano após contratos com o município de Serra do Mel, a 250 quilômetros de Natal; prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, afirmou que ‘não há qualquer fato que o vincule’ às suspeitas da investigação.

A Polícia Federal identificou uma conta ‘laranja’, em nome de uma estudante menor de idade, usada pelos operadores de suposta rede de propinas e fraudes em licitações na área da Saúde que atinge o prefeito de Mossoró e pré-candidato ao governo do Rio Grande do Norte, Allyson Bezerra (União) – alvo principal da Operação Mederi, desencadeada no final de janeiro. O esquema movimentou R$ 13,5 milhões pagos a uma empresa fornecedora de medicamentos que, segundo a PF, repassava vultosas propinas ao prefeito. Uma das artimanhas para não chamar a atenção dos investigadores e dos órgãos que mapeiam o fluxo de dinheiro era o uso da conta da menor, filha do dono da farmacêutica, que armazenava e distribuía o dinheiro da corrupção. A conta movimentou R$ 427 mil em um ano após contratos com o município de Serra do Mar, a 250 quilômetros de Natal.

Em 27 de janeiro, quando a Operação Mederi foi deflagrada, o prefeito de Mossoró afirmou que “não há qualquer fato que o vincule pessoalmente” às suspeitas de fraudes e entrega de propinas.

No centro do escândalo está a companhia Dismed, que teria como sócio-administrador o empresário Oseas Monthalggan, apontado como responsável por organizar e determinar a entrega de propinas a agentes públicos.

Segundo a PF, a engrenagem de desvio de recursos da Saúde e fraude em licitações alcançou os municípios potiguares de Serra do Mel, Mossoró, Paraú, São Miguel, José da Penha e Tibau.

A filha de Oseas Monthalggan e Roberta Ferreira Praxedes da Costa – mulher do sócio da Dismed e proprietária da Drogaria Mais Saúde, também envolvida na entrega de propinas e em contratos fraudulentos -, teve a conta bancária utilizada pelos pais para lavar dinheiro do esquema, segundo a investigação.

O Estadão busca contato com a defesa de Oseas e Roberta. O espaço está aberto. 

“Cliente não aparenta possuir capacidade econômico-financeira para movimentar tal volume de recursos. Suspeita-se de movimentação de recursos de terceiros, notadamente de seu pai, para fins de sonegação fiscal”, aponta a PF.

A análise dos débitos da Drogaria Mais Saúde pelos investigadores revelou que a maior parte das saídas financeiras da empresa foi direcionada para a filha de Roberta e Oseas. Ela recebeu R$ 427 mil entre julho de 2022 e junho de 2023.

Serra do Mel

A Drogaria Mais Saúde, empresa de Roberta, tinha como principal cliente o município de Serra do Mel, a 250 quilômetros de Natal.

Entre 2024 e 2025, a cidade de 13 mil habitantes pagou à empresa R$ 1,4 milhão. Por trás das transferências estaria o ex-vice-prefeito de Serra do Mel e apontado como sócio de fato da Dismed, José Moabe Zacarias Soares (PSD), segundo a Polícia Federal.

Candidato a prefeito em 2024, Moabe operou junto a Oseas os pagamentos de propina em Mossoró e nos demais municípios investigados, diz a Operação Mederi.

Em um diálogo interceptado, Moabe e Oseas detalham o que chamam de “Matemática de Mossoró”, esquema que, segundo os investigadores, atenderia às demandas do prefeito Allyson Bezerra em relação ao repasse de propinas.

“Olhe, Mossoró, eu estudando aqui. Como é a matemática de Mossoró. Tem uma ordem de compra de quatrocentos mil. Desses quatrocentos, ele entrega duzentos. Tudo a preço de custo! Dos duzentos ele vai e pega trinta por cento, sessenta R$ 60.000,00, então aqui ele comeu R$ 60.000,00! Fica R$ 140.000,00) pra ele entregar cem por cento. Dos cento e quarenta ele R$ 70.000,00. Setenta com sessenta é meu, R$ 130.000,00. Só que dos cento e trinta nós temos que pagar cem mil R$ 100.000,00 a Allyson e a Fátima, que é dez por cento de Fátima e quinze por cento de Allyson. Só ficou trinta mil R$ 30.000,00 pra a empresa!”, disse Oseas Monthalggan, em maio de 2025, sobre a ‘matemática’ do município.

Topo do esquema

Para os investigadores, o prefeito de Mossoró e seu vice, Marcos Bezerra (PSD), operavam “o topo do esquema”, além de receber “propina em porcentuais definidos sobre os contratos” com a Dismed.

Bezerra também foi alvo de busca e apreensão no âmbito da Operação Mederi. O Estadão busca contato com a defesa do vice. O espaço está aberto.

“Em relação a Allyson e Marcos, há referências nominais específicas nas conversas indicando recebimento de valores”, diz a Polícia Federal.

“No nível intermediário, estariam os gestores administrativos, que garantiriam as condições institucionais para funcionamento do sistema. No nível operacional, estariam os fiscais e gestores de contrato que viabilizariam concretamente as entregas parciais mediante atestados. Externamente à administração pública, estariam os empresários, que operacionalizariam o esquema no âmbito privado”, assinala a investigação.

Na decisão que autorizou as diligências, o desembargador do Tribunal Regional Federal da 5.ª Região (TRF5), Rogério Fialho Moreira, destacou informação da Controladoria Geral da União, segundo a qual ‘todas essas práticas ilícitas teriam sido encabeçadas pelo alto escalão’ das gestões municipais.

Fonte: Jornal ESTADÃO.

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Orelha: o puxão que faltou. Por Luis Marcelo Cavalcanti.

O debatido caso do cão comunitário Orelha me fez refletir sobre a educação dos nossos filhos. Que, sem saber, podemos estar criando filhos sem limites dentro de casa. E aí me pergunto: Onde falhamos? Quando foi que deixamos de fazer o dever de casa na formação dos nossos filhos? O que fazer para evitar que novos Orelhas e Caramelos sejam vítima de filhos da omissão…?


Há quem diga que não foi a falta de educação que gerou aqueles adolescentes criminosos, sádicos e cruéis. O problema deles está no caráter, na alma. Tenho dúvidas.
Porque acho que caráter se constrói, se molda a partir do exemplo e da educação. Penso mesmo que faltou o velho e bom puxão de orelha. Por faltar neles, sobrou pro inocente cão. Faltou limite. Faltou o “não” que forja o caráter. Faltou o limite que salva. Faltou a disciplina que cura. Crianças e adolescentes órfãos de pais vivos. Suponho que o exemplo de casa não devia ser dos melhores. Imagino ali pais hipersolícitos e crianças hipersaciadas, na definição do saudoso Içami Tiba, para quem criar é diferente de educar: “Criar uma criança é fácil, basta satisfazer-lhe as vontades. Educar é trabalhoso.” Basta lembrar que pelo menos dois desses criminosos receberam como castigo uma viagem à Disney.


Tiba é didático ao dizer que o “não”firme e recorrente faz a criança incorporar a regra. Com o tempo “aquele critério de valor passa a fazer parte dela.”(Disciplina: Limite na Medida Certa). Parece mesmo que na pródiga família da Praia Brava sobrou dinheiro e faltou valor. E sem critério de valor, apenas o dinheiro se fez parte nas crianças.


O fato reacende a necessária discussão sobre a redução da maioridade penal e sobre a reforma do ECA para prever “medidas” mais duras, inclusive por crimes contra animais.
E ganha contornos de distopia digital imaginar que aquela crueldade foi divulgada numa tal plataforma Discord, onde crianças e adolescentes compartilham vídeos de tortura de animais e, por vezes, humanos.


Mas convenhamos, amigo leitor, esses monstrinhos e seus pais sofrerão uma pena que não está no ECA (porque vedada pela Constituição): o banimento…

Luís Marcelo Cavalcanti é Procurador do Estado e Advogado.

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1 ano do Blog Marcus Aragão. Por você.

Certa vez vi uma propaganda muito premiada de um restaurante em NY que só abria para o jantar. Em uma única frase, sintetizava o zelo e a qualidade que o estabelecimento dedicava ao produto final:

— “Só abrimos à noite porque passamos o dia inteiro preparando o seu jantar.”

O fato é que essa frase nunca mais saiu da minha cabeça. E, de certa forma, é isso que tento fazer aqui com o nosso blog.

Publicamos, em média, um post por dia. Não que os textos demorem a ser escritos — geralmente levam entre uma hora e uma hora e meia. Mas passo o dia inteiro lendo, refletindo, conversando, fazendo atividade física, enfim, abastecendo o cérebro com matéria-prima selecionada e buscando uma qualidade de vida que certamente se reflete na qualidade dos textos.

Nosso perfil não tem — nem pretende ter — a mesma quantidade visualizações mensais de outros blogs, mas nossos posts isoladamente costumam ter. O algoritmo percebe relevância em nosso conteúdo e faz uma entrega bem maior do que o número dos nossos seguidores, que hoje está um pouco acima de 17 mil. Temos posts com visualizações muito elevadas, mesmo quando comparados a grandes perfis, como você pode comprovar nos prints do carrossel. Já tivemos mais de meio milhão de visualizações em um único post.

Ter vocês acompanhando nosso trabalho é um grande presente. E, ao mesmo tempo, sinaliza um grande futuro.

Este é o momento de agradecer a Deus, aos leitores, aos anunciantes — em especial à Unimed, que acreditou no projeto ainda na fase inicial — e também aos colaboradores que nos enviam textos autorais para publicação. Pessoas extremamente qualificadas que compartilham verdadeiras pérolas com nossos leitores.

Meu muito obrigado a Fernando Rocha, Luís Marcelo, Bruno Montenegro Ribeiro Dantas, Alexandre Aragão, Alexandre Teixeira, entre outros que ajudam a enriquecer este espaço.

E termino agradecendo especialmente a você, leitor, por permitir que o nosso blog entre na sua timeline, e de alguma forma, na sua vida. Em um mundo repleto de conteúdos descartáveis, consumidos em segundos, ter você dedicando tempo para ler nossos textos nos motiva a ir mais longe, ajudando a escrever, juntos, a história da informação no RN.

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Quando o Mounjaro quer tirar o peso da consciência. Por Aragão.

Estamos virando uma geração que quer emagrecer sem mudar hábitos, ser feliz sem enfrentar frustrações e resolver crises com salvadores da pátria?

Somos a geração dos atalhos… 

Sempre seduzidos pelo menor esforço. Seja o salvador da pátria que promete resolver sozinho problemas que levaram décadas para se formar. O amor à primeira vista que dispensaria convivência, diálogo e maturidade emocional; o antidepressivo que promete paz e alegria; ou a dieta milagrosa que garantiria transformação sem disciplina. Em todas essas narrativas existe um elemento comum: a promessa de redenção sem processo.

— Esse é um problema que a sociedade insiste em empurrar com a barriga… mas bem sequinha.

O Mounjaro, para muitos, deixou de ser tratamento e passou a ser símbolo de uma fantasia contemporânea: a possibilidade de mudar o corpo sem enfrentar o estilo de vida que construiu aquele corpo. É como se a seringa pudesse negociar com a biologia aquilo que a rotina insiste em ignorar.

Medicamentos que alteram o metabolismo, o apetite e a resposta hormonal não são neutros. Eles exigem adaptação alimentar, acompanhamento clínico e, principalmente, mudança comportamental para que os resultados sejam sustentáveis. Quando utilizados de forma recreativa, sem prescrição médica, e como substitutos de hábitos — e não como aliados deles — o risco de efeito rebote, perda de massa muscular, dependência psicológica e complicações médicas aumenta. Pancreatites e mortes associadas ao uso do medicamento já começam a ser noticiadas.

Certa vez vi um amigo enfrentar uma enorme torta de chocolate e, diante do meu olhar de espanto, respondeu com naturalidade:

— Não tem problema. Mais tarde tem Mounjaro.

— Tá triste? Venvanse. Nervoso? Rivotril. Gordo? Mounjaro. Crise no país? Salvador da pátria.

O problema surge quando passamos a acreditar que é possível eliminar completamente o custo das transformações. A biologia, a psicologia e a própria história costumam demonstrar o contrário. — Um dia, a conta chega.

Porque nenhuma caneta injetável foi capaz, até hoje, de substituir o processo de carregar — e compreender — o peso das próprias escolhas.

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Por que eu idolatro Jesus Cristo? Por Fernando Rocha.

Este não é um texto de conteúdo religioso, nem pretende ter qualquer cariz teológico. Não discuto dogmas, milagres ou verdades de fé. Falo, antes de tudo, do exemplo de vida. Da força ética e humana de uma trajetória que atravessou séculos e inspirou algumas das pessoas mais admiráveis da história.

Eu idolatro Jesus Cristo pelo modo como viveu e pelo tipo de humanidade que encarnou. Pela simplicidade radical, pelo altruísmo sem cálculo e pelo amor ao próximo exercido de forma concreta, desinteressada e, muitas vezes, incômoda. Um amor que não escolhe destinatários convenientes, mas alcança pobres, doentes, marginalizados, traídos, inimigos e até aqueles que o condenaram.

Esse exemplo transbordou o próprio tempo histórico e serviu de referência para figuras que, cada uma a seu modo, tentaram viver a mesma lógica de doação. Pessoas que transformaram compaixão em ação, simplicidade em método e cuidado com o outro em projeto de vida. Todas inspiradas, direta ou indiretamente, pela mesma ideia fundamental: o valor de uma existência se mede pelo bem que ela produz.

Há também um aspecto profundamente revolucionário para sua época: a forma como Jesus enalteceu e dignificou as mulheres, rompendo com uma tradição estruturalmente machista. Em um contexto em que a mulher era frequentemente invisibilizada, ele a colocou no centro da experiência humana e moral. Maria, sua mãe, é apresentada como símbolo de coragem e dignidade. Maria Madalena surge como amiga leal, presente quando muitos haviam fugido. Não por acaso, são mulheres as primeiras testemunhas dos acontecimentos decisivos de sua história, um detalhe que desafia frontalmente a mentalidade social e jurídica daquele tempo.

Mas é talvez na sua postura contra a mercantilização da fé que meu apreço se torna ainda mais vigoroso. Jesus combateu de forma enfática os chamados mercadores do templo. Foi explícito, duro e inequívoco ao denunciar a transformação da fé em negócio, do sagrado em produto e da esperança alheia em fonte de lucro. 

Ali, ele deixa claro que há algo profundamente errado, moralmente errado, em enriquecer à custa da crença, do medo ou da fragilidade das pessoas. Apropriar se do nome do Pai para mercancia, para acumulação de riqueza ou poder, é apresentado como desvio grave, incompatível com qualquer ética minimamente honesta.

Essa crítica é de uma atualidade quase desconfortável. Vivemos um tempo em que proliferam mercadores da fé modernos, que vendem milagres, prometem prosperidade, negociam bênçãos e transformam a espiritualidade em modelo de negócio altamente lucrativo. O que deveria ser consolo vira produto. O que deveria ser serviço vira exploração. O que deveria ser simplicidade vira ostentação. Nada parece mais distante do exemplo de Cristo do que a fé convertida em instrumento de enriquecimento ilícito, travestido de devoção.

Os próprios relatos bíblicos reforçam essa ética. Jesus lava os pés dos discípulos para ensinar que autoridade é serviço, não dominação. Multiplica o pão para que ninguém passe fome, não para exibir poder. Conta a parábola do bom samaritano para mostrar que o verdadeiro amor não reconhece fronteiras, identidades ou conveniências. Amar o próximo, ali, é amar sem esperar retorno, sem aplausos, sem lucro.

Nada disso exige fé para ser admirado. Trata se de uma proposta de humanidade profundamente atual. Em um tempo em que tantos idolatram mitos vazios, ególatras profissionais e narcisistas de redes sociais, figuras que vivem da própria imagem, da autopromoção e da validação constante, o exemplo de Cristo vai na contramão. Ele não buscou fama, não acumulou riquezas, não construiu palácios. Deixou um padrão ético exigente: a bondade como escolha diária, a simplicidade como forma de resistência e o cuidado com o outro como medida de grandeza.

Por isso, eu idolatro Jesus Cristo. Não como objeto de culto abstrato, mas como referência de vida. Porque, quanto mais barulhento, vaidoso e mercantilizado se torna o mundo, inclusive no campo da fé, mais revolucionária se revela a ideia de viver com simplicidade, honestidade, respeito e amor genuíno ao próximo.

Fernando Rocha é Procurador da República e Mestre em Direito Internacional.

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Flávia Camilla 08 fev 2026

Bela e necessária reflexão!

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Grupos poderosos utilizam o excesso de judicialização para impedir a divulgação de pesquisas.

Não se consegue ficar medindo cada milímetro do regulamento nem buscar “cisco jurídico” usando uma lupa nas linhas e entrelinhas das pesquisas sem contar com um aparato estruturado que, muito provavelmente, só está a disposição dos pré-candidatos pertencentes a grupos poderosos. — Como é o caso dos partidos ligados ao pré-candidato Allyson Bezerra.

É legítimo que partidos fiscalizem pesquisas. Faz parte do jogo democrático. O que merece reflexão é quando esse mecanismo passa a ser utilizado como estratégia recorrente para retardar ou inviabilizar a divulgação de dados que podem ser desfavoráveis a determinados grupos políticos.

O caso envolvendo pesquisa do instituto INSPPE e o Datavero, são bons exemplos. Um foi barrado judicialmente após questionamentos sobre a origem dos recursos que foram esclarecidos na sequência. O outro, levantou dúvidas sobre o pesquisador que também foram solucionadas. Ambos não passaram de ciscos jurídicos que foram espanados com facilidade tendo sua publicação liberada.

— O cisco vai parar sempre no olho do eleitor.

Essas tentativas de impedimento ocuparam apenas o tempo do judiciário com trivialidades. Sim, é muitíssimo provável que os grupos políticos sabiam do óbvio desfecho mas insistiram na judicialização para “ganhar” alguns dias fazendo o eleitor “perder” a oportunidade de enxergar o cenário eleitoral evidenciado pelas pesquisas.

Esse é o problema quando o zelo técnico ultrapassa a fronteira da razoabilidade e passa a tentar restringir o fluxo de informação ao eleitor.

Quando pesquisas são barradas por irregularidades graves, o sistema funciona e deve funcionar. Mas quando suspensões passam a ocorrer de forma reiterada por entraves burocráticos que posteriormente são sanados facilmente, surge a impressão de que a judicialização deixa de ser instrumento de proteção e passa a ser instrumento de disputa política.

A democracia não se fortalece com menos informação. Ao contrário. Democracia exige luz, debate e confronto de dados.

— Cisco jurídico é um neologismo que significa algum entrave de baixa relevância.

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O colapso: exaustão elevada à virtude. Por Bruno Montenegro Ribeiro Dantas.

A essa tirania do desempenho soma-se outro fator decisivo de desgaste existencial: o excesso de informação. Vivemos quase que em uma versão avançada da Biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges. Um universo saturado de dados, no qual a abundância paradoxalmente esvazia o sentido. A promessa de acesso irrestrito ao conhecimento converte-se em ruído permanente, exigindo atenção contínua, mas raramente permitindo compreensão profunda. A mente é bombardeada por fragmentos desconexos que impedem o recolhimento necessário à reflexão. Repete-se o drama de Funes, o Memorioso: a incapacidade de esquecer paralisa o pensamento. Pensar, como lembra Borges, é abstrair, generalizar, eliminar diferenças. Repleta de estímulos, a consciência acumula detalhes irrelevantes, mas perde o dom de sintetizar. A consequência não é somente o cansaço cognitivo, mas também uma crescente docilidade intelectual, que reduz a disposição para o questionamento crítico e abre espaço para narrativas simplificadoras que se impõem e assumem a roupagem da realidade.

Essa condição de esgotamento não se limita ao plano produtivo. Antes ela se manifesta também na luta cotidiana por sentido. Muitos de nós nos vemos engajados em
batalhas desproporcionais contra estruturas abstratas e impessoais, como as exigências do mercado, a burocracia ou os ideais inalcançáveis de equilíbrio e sucesso, para citar alguns exemplos. A luta assume frequentemente contornos quixotescos. Como Dom Quixote, lançado contra moinhos de vento que confunde com gigantes, insistimos em sustentar ideais de plenitude e justiça em um mundo governado pela utilidade. A colisão entre intenção e realidade produz frustração reiterada, alimentando a sensação de inutilidade do esforço.

No contexto brasileiro, a figura do idealista esmagado pela realidade ganha expressão particularmente trágica em Policarpo Quaresma. Seu nacionalismo ingênuo e
sua crença na regeneração do país colidem violentamente com a corrupção, a violência e a indiferença do Estado. A trajetória que o conduz do entusiasmo à aniquilação simboliza o burnout moderno: a extenuação daqueles que se dedicam intensamente a um ideal, a um trabalho ou a uma causa, apenas para descobrir a desproporção brutal entre o indivíduo e as engrenagens do sistema. A derrota não decorre da falta de empenho, mas da assimetria estrutural que transfigura o esforço em estafa vã.

Após um olhar mais profundo, contudo, observa-se que o enfraquecimento das grandes narrativas de sentido e a hiperindividualização da vida social lançaram o sujeito na tarefa solitária de justificar sua própria existência. Dostoiévski captou com precisão esse dilema ao explorar o peso insuportável da liberdade absoluta. Quando não há instância transcendental que fundamente valores e escolhas, o ser humano se torna legislador de si mesmo, mas também carrega sozinho o fardo dessa responsabilidade. A solidão que daí decorre não é unicamente social, mas ontológica: o sofrimento de não poder amar, de não encontrar um sentido que ultrapasse o próprio eu.

Essa solidão aparece de forma pungente na voz infantil de Maria Carmem, autora da obra Se deus me chamar não vou. Seu diário revela o abandono silencioso em um mundo adulto disfuncional e indiferente. A recusa expressa no título não é mera rebeldia, senão um gesto de autopreservação diante de exigências precoces de maturidade e resiliência. A criança solitária torna-se, assim, metáfora de uma sociedade que empurra seus membros à autossuficiência forçada, exigindo-lhes força onde deveria haver amparo.

Ao reunir essas imagens, me parece evidente que o arranjo civilizacional atual não se estrutura prioritariamente pela coerção externa, mas por uma tirania internalizada. Somos condicionados a amar nossa própria gaiola, a confundir liberdade com desempenho e felicidade com anestesia. Nesse particular, o grito do protagonista John, o Selvagem, em Admirável Mundo Novo, ressoa como uma recusa radical ao conforto administrado. Ao reivindicar o direito à dor, ao perigo e à imperfeição, ele afirma a necessidade de uma existência autêntica, não higienizada, capaz de suportar as contradições que constituem o ser humano.

Em arremate, é possível que o verdadeiro escândalo do nosso tempo não seja a saturação subjetiva em si, mas a naturalidade com a qual a aceitamos. Aprendemos a tratar a exaustão como virtude, o esgotamento como prova de valor, o colapso como etapa inevitável do sucesso. Não estamos cansados: estamos adestrados. A pergunta decisiva, portanto, não é como descansar melhor, mas por que insistimos em viver de modo a precisar desesperadamente de descanso. Enquanto buscamos técnicas de produtividade, terapias de adaptação e paliativos emocionais, deixamos intacta a engrenagem que nos consome.

Talvez a fadiga que nos atravessa seja mesmo e precisamente o sintoma dessa resistência silenciosa. A persistência da sociedade do desempenho, devo registrar, só encontra sobrevida diante de uma última linguagem disponível para dizer aquilo que já não ousamos formular: que algo está profundamente errado com a forma pela qual escolhemos existir.

Bruno Montenegro Ribeiro Dantas é Juiz de Direito e mestre em Direito e Poder Judiciário pela ENFAM.

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Setor de energia solar confirma protesto contra a Neoenergia Cosern, amanhã, dia 06.

A mobilização do setor de energia solar no Rio Grande do Norte segue crescendo. Mesmo após a sinalização de diálogo por parte da Neoenergia Cosern, consumidores, empresários e integradores continuam relatando insatisfação com as mudanças no faturamento e na compensação de créditos de energia.

Representantes do setor afirmam que as medidas anunciadas pela Neoenergia Cosern não solucionam as principais reclamações, tampouco reparam, de forma efetiva, os prejuízos causados ao setor e à população.

Diante desse cenário, empresas, consumidores e profissionais ligados à micro e minigeração distribuída mantiveram a convocação para uma manifestação pública em frente à sede estadual da Neoenergia Cosern, em Natal.

O ato está marcado para sexta-feira, 6 de fevereiro, às 8h, na Rua Jean Mermoz, nº 150, bairro Cidade Alta, Baldo. Segundo os organizadores, a mobilização terá caráter pacífico e busca chamar atenção para as demandas do setor e dos consumidores que se sentem prejudicados.

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Cristiane Dantas volta a cobrar recuperação da RN-002, em Georgino Avelino

A deputada Cristiane Dantas (SDD) voltou a cobrar, durante sessão plenária desta quinta-feira (05), providências do Governo do Estado em relação ao programa de recuperação de rodovias, com foco no trecho da RN-002.

A parlamentar lembrou que no dia 23 de setembro de 2025 foram assinadas ordens de serviço da segunda etapa do programa de recuperação da malha viária estadual, com investimento de R$ 621 milhões para a recuperação de 665 quilômetros de rodovias em todo o estado. Entre os trechos previstos está a RN-002, no segmento que liga a BR-101 ao município de Senador Georgino Avelino.

Segundo Cristiane Dantas, a situação atual da rodovia é crítica. Ela relatou que não há mais asfalto, apenas barro e buracos, o que tem provocado acidentes e aumentado a sensação de insegurança para quem precisa trafegar pelo local. A deputada destacou que, pela data em que a ordem de serviço foi assinada, o trecho já deveria estar sendo contemplado.

Antes de concluir sua fala, a deputada informou ainda que pretende entrar novamente em contato com a diretoria do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RN), para reforçar a cobrança. Ela defendeu que os recursos disponíveis e já licitados sejam efetivamente aplicados, lembrando que o programa vai contemplar a recuperação de 38 rodovias em diferentes regiões do Rio Grande do Norte.

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Crônica: Montesquieu na UTI (de tanto rir) e o “Autocontrole” dos Deuses. Por Alexandre Aragão.

Bom dia, dona Maria, que está aí no ponto de ônibus tentando entender por que o preço do arroz subiu, mas a moralidade desceu!

Pois é. Eu estava aqui pensando com os meus botões – que são poucos, mas funcionam melhor que certas instituições – e imaginei a seguinte cena: o Barão de Montesquieu, aquele francês que desenhou essa coisa bonita chamada “Separação de Três Poderes”, levantando do túmulo, olhando para o Brasil e tendo uma síncope de riso. Uma gargalhada daquelas de perder o fôlego!

Sabe por quê? Porque agora inventaram a jabuticaba jurídica suprema: o “autocontrole” para evitar fiscalização.

Veja essa, meu caro leitor! É genial. É fantástico. O sujeito diz: “Olha, não precisa ninguém me fiscalizar não, viu? Eu mesmo me fiscalizo. Eu tenho autocontrole!”

Ah, faça-me o favor! Me ajuda aí!

É a mesma coisa que botar a raposa tomando conta do galinheiro e ela assinar um termo de compromisso dizendo: “Fiquem tranquilos, galinhas. Eu terei autocontrole gastronômico. A porta pode ficar aberta, mas eu prometo que não vou morder ninguém.”

Aí eu pergunto, com a simplicidade de quem não usa toga, mas usa o cérebro: quem não deve, não teme! Não é isso que a gente ensina para criança pequena? Se o boletim tá azul, o menino mostra pro pai com orgulho. Se tá vermelho, esconde embaixo do colchão.

Agora, vem essa conversa mole, esse papo furado de rodapé de livro jurídico, dizendo que evitar a fiscalização externa é “preservar a democracia”.

Pera lá! Preservar a democracia ou preservar o cargo? Preservar as instituições ou preservar o compadrio?

A democracia, meu amigo, não é feita de redomas de vidro onde ninguém pode tocar. Democracia é vidraça! É transparência! Se um poder não pode olhar o que o outro faz, isso não é República, é Olimpo. É terra de deuses intocáveis.

Dizer que fiscalização é “ataque” é uma falácia orquestrada. É um escudo de papelão pintado de ouro. Eles gritam “Democracia!” enquanto trancam a porta do cofre e engolem a chave.

Montesquieu dizia que “o poder deve frear o poder”. Ele não disse “o poder deve se autoanalisar no espelho e dizer que está lindo”.

Essa blindagem da autoproteção é o cúmulo do cinismo. É o compadrio dos cúmplices do desmando, onde uma mão lava a outra, e as duas tentam tapar os olhos da população.

Então, excelências, menos “autocontrole” retórico e mais satisfação ao povo, que é quem paga a conta da luz, do ar-condicionado e da lagosta de vocês.

Toc, toc, toc. Tem alguém aí ou só tem ego de deuses?

Alexandre Aragão é advogado, com especialização em direito tributário pelo IBET e em direito empresarial pela FGV/RJ

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População reage com indignação à novas promessas da Neoenergia e protesto está mantido para sexta-feira, dia 06.

A sociedade potiguar segue indignada com os vários problemas de faturamento relacionadas as contas dos consumidores. A falta de repostas eficazes por parte da Neoenergia Cosern foram acumulando insatisfação que resultou em Notificação do Procon, Inquérito Civil no Ministério Público e agora, protesto marcado para sexta-feira, dia 06, em frente a sede da empresa na Rua Jean Mermoz, 150, Cidade Alta, Baldo.

São inúmeros comentários nas redes sociais que comprovam o nível de insatisfação da população que clama por melhorias no sistema de compensação da energia solar gerada, entre outros pleitos.

Segue a Nota da Neoenergia Cosern que gerou indignação:

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NOTA NEOENERGIA COSERN

Natal (RN), 03 de fevereiro de 2026

A Neoenergia Cosern informa que se reuniu nesta terça-feira (03) com a direção da Associação Potiguar de Energias Renováveis (APER) e com representantes de empresas e energia solar para esclarecer as principais dúvidas relacionadas ao faturamento dos clientes MMGD. Na ocasião, a distribuidora também apresentou um plano de ação para, entre outras iniciativas, reforçar o atendimento presencial para tirar dúvidas sobre MMGD a partir da próxima segunda-feira (09) nas Lojas de Atendimento de Natal (Rua João Pessoa, Centro), Mossoró e Caicó.

Uma nova reunião sobre o tema foi agenda para o início de março.

ASSESSORIA DE IMPRENSA DA NEOENERGIA COSERN

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Seguimos acompanhando o caso com a atenção e esperando soluções.

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