A estante de um advogado com mais de vinte anos de profissão não é propriamente um móvel. É um sítio arqueológico. Há estratos bem definidos ali, de edições com folhas já amareladas pelo tempo a lombadas que ainda guardam o cheiro de café de madrugadas atrás. Mas, aproveitando o clima de Quaresma — essa época propícia a penitências, em que a gente promete desapegar do açúcar, da bebida ou dos pecados de estimação —, decidi fazer o sacrifício supremo: desapegar da minha biblioteca jurídica. Parte dela já jazia em caixas num self-storage, de onde foram resgatadas hoje, 28 de fevereiro de 2026, como provas de um processo que ninguém lembrava de ter aberto.
Estabeleci um critério rigoroso, digno de juiz de primeira instância em dia de mau humor: só fica na prateleira o livro que eu, num momento de necessidade ou insônia, puder vir a abrir novamente. O resto, para as caixas de doação. Sentença irrecorrível.
Fácil falar. Na prática, foi como julgar velhos amigos.
Peguei aquele manual pesadão, companheiro de madrugadas insones na pós-graduação. Tinha orelhas dobradas, marca-textos desbotados e carregava a memória de uma época em que eu ainda acreditava que decorar incisos era a chave para decifrar o universo. Suspirei. A legislação muda mais rápido que o humor de síndico de condomínio; um manual de processo de vinte anos atrás tem a utilidade prática de um calendário de 1998. O livro foi para a caixa. Doeu, confesso.
Porém, no meio da poeira e da melancolia, tive uma daquelas epifanias que compensam a rinite.
Os sobreviventes do meu crivo implacável não eram livros sobre as leis. Eram livros sobre a essência delas.
Enquanto lá em Brasília há ministro ressuscitando processos arquivados com a mesma naturalidade de quem pede um pão na chapa, na minha estante quem ganhava vida nova eram os pilares da justiça — os imortais, que nenhuma canetada aposenta.
Limpei a capa e reencontrei Karl Engisch. Bati um papo mudo com John Rawls. Troquei olhares cúmplices com Norberto Bobbio e dei um aceno de respeito para Herbert Hart. Eles continuam lá, imunes às vaidades de toga. Não te dizem qual é o prazo de um recurso, mas te lembram o porquê do recurso existir.
Olhando para essa turma que restou na prateleira, não pude deixar de pensar nos calouros de Direito de hoje. Vivemos a era da inteligência artificial. O aplicativo escreve petições em segundos e cospe jurisprudência mastigada.
O risco moderno não é a máquina substituir o advogado — é o estudante começar a pensar como a máquina, buscando apenas o “sim”, o “não” e a resposta pronta.
Torço para que a garotada não se contente com o fast-food jurídico dos algoritmos. Que ainda tenha o ímpeto de ler Bobbio, de brigar com Rawls, de entender que o texto frio da lei é só a superfície de algo muito maior.
Porque o Direito, no fim das contas, é apenas uma ferramenta — um martelo, um esquadro, um bisturi. O objetivo nunca foi cultuar a ferramenta, mas a obra que ela ajuda a construir: aquele negócio teimoso, antiquado e indispensável chamado Justiça.
Fechei a última caixa de papelão, espirrei duas vezes e olhei para a estante. Ficou bem mais vazia, é verdade. Mas, de alguma forma, nunca pareceu tão cheia de sentido.

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