— A satisfação com o sofrimento alheio é um sintoma grave de uma sociedade adoecida.
É a prova de que o adversário foi desumanizado. Deixou de ser visto como pessoa e passou a ser reduzido a um objeto de ódio. É como se cada post relatando sua piora servisse como a ração que alimenta o sadismo. E quando uma sociedade chega a esse ponto, ela já não está mais apenas polarizada. Está intoxicada.
A desumanização é sempre um veneno sorrateiro. Ela começa no discurso, cresce na fake news, amadurece no deboche e, quando percebemos, transformamos o sofrimento do outro em entretenimento.
— Isso é adoecimento moral.
Porque quando o sofrimento físico de alguém passa a provocar satisfação, o que está doente já não é o corpo de quem está internado. É o ambiente moral de quem assiste. É o espírito público. É a capacidade de reconhecer que há uma dimensão humana que deveria sobreviver até mesmo ao mais duro antagonismo político. — É lógico que esse mesmo raciocínio valeria se fosse Lula quem estivesse internado.
Nenhuma democracia séria se sustenta quando o adversário perde sua condição de pessoa. A crítica política é salutar, mas o sadismo é a moral em sepse.
Não se trata de absolver Bolsonaro de nada. Não se trata de blindá-lo da crítica. Não se trata de transformá-lo em vítima política por causa de uma internação. Trata-se de algo mais simples e mais importante: preservar um mínimo de civilização.
Quem celebra a piora de saúde de um adversário talvez imagine estar demonstrando firmeza ideológica. Não está. Está apenas confessando, sem perceber, que a política já lhe consumiu a humanidade.
Não podemos terceirizar nossa culpa acusando os algoritmos das redes sociais — ou ainda, adotando convenientemente a postura de vítimas de uma polarização exacerbada. Temos consciência e uma formação moral que permite o discernimento.
E, utilizando o livre-arbítrio, possamos fazer nossas escolhas conscientemente para preservar nossa saúde mental e, em última análise, nossa humanidade.


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