Em 7 de dezembro de 2025, o pintor Luiz Fernando Mozer, 38, sofreu um acidente de motocross no Espírito Santo ao ser atingido por outro piloto durante uma manobra aérea.
Ao cair, ele já não sentia nada da cintura para baixo. Ainda no hospital, buscou um tratamento experimental após lembrar de notícias sobre a polilaminina.
“Ministério da Saúde e Anvisa já anunciaram que darão prioridade absoluta à autorização e realização dos estudos regulatórios”, afirmou o advogado da família, Hemerson Maia, no pedido apresentado em dezembro de 2025.
A Justiça negou o pedido inicial, mas voltou atrás dias depois.
O UOL apurou que, entre as duas decisões, houve lobby do governo do Espírito Santo a favor do medicamento desenvolvido pelo laboratório Cristália, fruto de parceria com a UFRJ.
O caso de Mozer abriu portas para dezenas de aplicações semelhantes nos meses seguintes.
No chamado uso compassivo, a Anvisa autoriza medicamentos ainda sem registro para pacientes graves sem alternativa.
Até o momento, a Anvisa autorizou a aplicação em 61 pacientes, segundo levantamento da reportagem nos processos da agência.
O UOL conversou com familiares de três deles, que relataram ter conhecido o medicamento via mídia e redes sociais.
A nutricionista Flávia Bueno, 35, se acidentou após um mergulho em uma praia de Maresias (SP), no início de janeiro de 2026.
“Coincidiu com a série de notícias sobre a pesquisa, quando houve o acidente da Flávia. Procuramos advogados que já tinham atuado nesses casos e achamos o doutor Hemerson”, contou o irmão dela ao UOL.
Parte dos pacientes que conseguiram a medicação passou a ter o tratamento compartilhado. Vídeos sobre a rotina de recuperação de quem recebeu a polilaminina viralizaram e deram tração ao tema.
A reportagem identificou que nove páginas de fofoca no Instagram com 47 milhões de seguidores publicaram ao menos 74 conteúdos sobre o tema em fevereiro.
“Glória a Deus! Paciente paraplégico já está fazendo academia 15 dias após receber polilaminina”, registrou o perfil Alfinetei, com 25 milhões de seguidores. A publicação teve mais de meio milhão de curtidas.
Mãe de um paciente que recebeu a polilaminina no Paraná, Neuraci Lima contou ter visto no Instagram um vídeo da bióloga Tatiana Sampaio, coordenadora do estudo.
O filho Wagner Lima, 23, sofreu um acidente de carro e ficou internado no Hospital Universitário de Cascavel, que propôs o tratamento.
“Vi vídeo da doutora Tatiana falando que primeiro fizeram a aplicação em um cachorro, e ele voltou a andar”, disse Neuraci, que vive em Mato Grosso e viajou a Catanduvas (PR) para ficar com o filho.
Nas redes, pacientes têm relatado melhora, mas médicos dizem ser prematuro atribuir a evolução à polilaminina, já que o tratamento inclui outras frentes, como fisioterapia e cirurgias.
A Associação Brasileira de Neurologia diz que relatos de casos não comprovam segurança ou eficácia de terapias experimentais nem permitem estabelecer causalidade ou benefício clínico.
O uso compassivo, afirma a entidade, deve ser decidido entre médico e paciente, com esclarecimento dos riscos, e ainda não há estudos clínicos suficientes sobre a polilaminina.
O Cristália investiu mais de R$ 110 milhões no desenvolvimento da substância, que promete devolver movimento a pacientes com lesão na medula.
Ciência e política
Mozer, o primeiro paciente do uso compassivo da polilaminina, recebeu o medicamento em Cachoeiro de Itapemirim (ES) em 12 de dezembro.
O prefeito da cidade é Theodorico Ferraço (PP), pai do então vice-governador Ricardo Ferraço (MDB). Um mês antes da aplicação, o vice-governador enviou carta ao Cristália dizendo acompanhar os avanços da pesquisa.
“O Espírito Santo se coloca oficialmente à disposição para atuar como Estado pioneiro e ambiente estruturante para o desenvolvimento clínico, tecnológico e institucional necessário à consolidação dessa inovação”, escreveu Ricardo Ferraço, atual governador do ES.
Em conversa com o UOL, em março, o coordenador de logística do uso compassivo junto ao Cristália, Mitter Mayer, descreveu como “coincidência do destino” a aplicação do primeiro paciente ter ocorrido no ES, seu estado de origem.
Primo de um dos pesquisadores, Mayer é ex-vereador e, na última eleição, se candidatou a prefeito pelo PP. Até fevereiro deste ano, trabalhava como assessor especial do governo do Espírito Santo e como coordenador do grupo de trabalho da polilaminina no estado.
“Soubemos da judicialização quando já havia a decisão judicial autorizando. Logo depois da aplicação dele [Mozer], isso virou uma corrida”, disse Mayer, que abriu uma empresa com dois médicos em janeiro, para coordenar a logística do uso compassivo.
O Serviço de Atendimento ao Consumidor do laboratório recebeu mais de 8.000 contatos relacionados ao medicamento e considerou 216 aptos a seguir o processo perante a Anvisa.
A comunidade científica tem pedido cautela com a polilaminina, pois não há, até o momento, evidências de eficácia ou segurança do tratamento.
Pessoas com influência
Ao barrar o primeiro pedido de Mozer, o juiz André Luiz Martins da Silva, da 1ª Vara Federal de Cachoeiro de Itapemirim, afirmou que não havia “prova científica cabal” garantindo a segurança da dispensação sem avaliação da Anvisa.
A defesa argumentou que a agência poderia levar até 45 dias para analisar o pedido, prejudicando o tratamento, e solicitou que a própria Anvisa autorizasse o uso.
Diante da negativa, o advogado Hemerson Maia pediu reconsideração e apresentou novos documentos, entre eles uma carta do Cristália.
Nela, o laboratório afirmava não ter como atender Mozer naquele momento, mas se colocava à disposição para protocolar o uso compassivo na Anvisa e fornecer o medicamento em caso de autorização judicial.

O advogado Hemerson Maia disse que, após a negativa, foi ao juiz acompanhado de Mitter Mayer e de outra advogada. Contou que tentou levar pessoas influentes à Justiça para reforçar a importância do tema.
“O Mitter conversou com o magistrado, explicou sobre o interesse do estado do Espírito Santo em receber a pesquisa aqui nos hospitais. Falou sobre a carta-convite [do vice-governador]”, narrou.
Naquele momento, a Anvisa não havia autorizado a primeira fase do estudo clínico para avaliar a segurança da molécula no tratamento de lesões na medula espinhal, o que ocorreu em janeiro deste ano.
O defensor avaliou não ter havido intervenção do governo do ES no processo judicial. Após decisão favorável, disse que “houve uma pressão por parte do governo” pela aplicação da polilaminina em Mozer.
Ele descreveu como complexo o processo no hospital, pois havia “uma resistência muito grande” da equipe médica, que desconhecia o remédio.
“Houve lobby do governo do estado com o Cristália, para abrir os hospitais. A equipe médica não queria que a do laboratório viesse. O governo entrou em cena e falou: ‘vai abrir o centro clínico, sim’.”
Uso compassivo x estudo clínico
A partir da primeira decisão judicial, o Cristália começou a aplicar a polilaminina em uso compassivo em todo o país.
O laboratório custeia despesas de logística, honorários e viagens por meio da empresa Lamilab, criada por Mitter Mayer e dois médicos para “fazer a prestação de contas” do serviço.
Mayer contou que a aplicação da polilaminina requer uma “técnica de injeção específica” e, por isso, profissionais específicos se revezam para atender os pacientes.
“A ideia é promover algum curso de qualificação. A gente está organizando essa logística para nos próximos meses treinar uma turma.”
O coordenador reconheceu ao UOL a dificuldade de acompanhar os resultados do uso compassivo, fora do estudo clínico autorizado pela Anvisa, que terá análise de uma comissão da agência e monitoramento de cada paciente.
“O uso compassivo é o Big Brother da vida real”, afirmou Mitter Mayer.
Segundo ele, a equipe busca monitorar todos os pacientes, inclusive os que estão distantes. “Mas não é como acompanhar diariamente.”
Foto do Post: Mitter Mayer, representante do Cristália, ao lado de Luiz Fernando Mozer, paciente de uso emergencial da polilaminina Imagem: Reprodução/Instagram

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