Na minha infância, o dia não amanhecia enquanto minha mãe não acordasse.
Não era metáfora. Era a ordem natural das coisas, tão certa quanto a gravidade e o movimento dos astros. O sol podia já estar alto, a luz já derramada pelas frestas da janela, os pássaros já em pleno exercício de seu ofício matinal, e ainda assim o dia permanecia suspenso, incompleto, como uma frase sem ponto final. Era ela quem rompia o silêncio com os primeiros passos no corredor, o cheiro do café se espalhando pela casa como um anúncio solene, a voz chamando pelo nome com aquela entonação que nenhum outro ser humano jamais reproduziu. Só então o mundo começava.
Os filósofos gregos passaram séculos discutindo o sumo bem, o summum bonum, esse bem supremo em direção ao qual toda existência tende sem sempre saber. Aristóteles o chamou de eudaimonia, o florescimento pleno da alma. Platão o colocou além do próprio ser, inacessível e luminoso como o sol que torna tudo visível sem poder ser olhado diretamente. Agostinho o identificou com Deus, dizendo que o coração humano permanece inquieto até repousar nele.
Todos estavam certos. E todos estavam, à sua maneira, falando de mãe.
Porque a mãe é a aurora. Não a aurora decorativa dos poetas românticos, feita de rosa e dourado para enfeitar versos. A aurora real, aquela que chega sem pedir licença, que não consulta o humor de ninguém, que simplesmente aparece e com sua presença desfaz toda a escuridão anterior. Com ela não há tristeza que resista ao primeiro café, nem melancolia que sobreviva ao primeiro abraço. Não porque ela negue a dor, mas porque sua presença a redimensiona, coloca cada sofrimento no lugar exato que ele merece, nem maior nem menor, e revela que ao redor da dor existe sempre mais vida do que a dor deixa ver.
As lições da mãe têm uma característica que nenhuma escola reproduziu: elas não doem. Não porque sejam fáceis, mas porque chegam embrulhadas em algo que as torna palatáveis sem torná-las menos verdadeiras. A correção que viria dura de qualquer outra boca chegava pela boca dela temperada com uma precisão afetiva que desarmava qualquer resistência. Você não se defendia. Você simplesmente entendia, e o entendimento ficava.
E permanece.
Essa é a marca mais espantosa das lições maternas: sua durabilidade. Tudo na vida tem prazo. As certezas filosóficas envelhecem, os amores se transformam, as convicções políticas mudam, os corpos cedem. Mas aquilo que a mãe depositou nos primeiros anos, com a paciência artesanal de quem sabe que está construindo algo para durar, permanece intacto décadas depois, funcionando silenciosamente como uma bússola que não precisa ser consultada porque já foi internalizada.
Kant dizia que o sumo bem exige a coincidência entre virtude e felicidade, e que o mundo empírico raramente oferece essa coincidência. Tinha razão quanto ao mundo. Mas esqueceu de considerar as mães, que são justamente o lugar onde virtude e felicidade coincidem de maneira espontânea e gratuita, sem precisar de nenhuma postulação metafísica para se justificar.
A mãe não ama porque é virtuoso amar. Ama porque amar é, para ela, simplesmente o modo de existir. E nesse amor sem cálculo e sem condição está, talvez, a aproximação mais concreta que a experiência humana oferece daquilo que os filósofos buscaram em sistemas elaborados durante séculos.
Aristóteles disse que o sumo bem é aquilo que é desejado por si mesmo e não como meio para outra coisa. Toda criança sabe, antes mesmo de ter linguagem para dizê-lo, que o colo da mãe é exatamente isso: não serve para nada além de si mesmo, e por isso vale tudo.
O dia, na minha infância, não amanhecia enquanto ela não acordasse.
Hoje compreendo que não era dependência. Era reconhecimento. A intuição precoce, ainda sem palavras, de que certas presenças são fundamento, e que o dia só faz sentido pleno quando quem nos ensinou a vê-lo está, de alguma forma, junto.
A aurora nunca falha. E as mães, mesmo quando o tempo as transforma e a vida as afasta, continuam amanhecendo dentro de nós, todos os dias, com aquela luz que nenhuma escuridão conseguiu apagar.
À Oliveth, minha mãe.
Fernando Rocha é Procurador da República
Comentários (9)
9 respostas para “Eita Porra! Por Aragão.”
Eita porra, o absurdo virou padrão
Eita Porra!
Que texto! muito preciso e zero agressividade.
Só vi verdades. Parabéns pela qualidade do texto.
Eita porra! É assim mesmo.
Nem sei …basta entrar nas redes sociais é um “eita porra”atrás do outro!
Nem sei …basta entrar nas redes sociais é um “eita porra”atrás do outro!
Malfeitores na sanha constante de implementar um regime pernicioso no país, uma meia dúzia de muitos, enquanto o povo reage apenas com um “eita porra”.
O final caótico se avizinha e muitos se arrependerão das suas passividades…
Concordo em grau, número e gênero. Eita p****!