A- A+

Bets — A droga digital que destrói famílias e a economia. Por Aragão.

Segundo Renato Meireles, CEO do Instituto Locomotiva, que pesquisa os hábitos da classe média, o consumidor de baixa renda classifica as bets como investimento e não como despesa ou entretenimento.  

Insônia com as dívidas, tremores dos cobradores, dificuldade de enxergar perspectivas, fraqueza em voltar a jogar, delírios em acreditar que pode ganhar e depressão com o enorme prejuízo. Esses são apenas alguns dos sintomas que vêm assolando a vida de milhares de brasileiros.  

— Apostas online e a dependência. 

Você ficará viciado apenas com a possibilidade de ganhar. Veja como isso ocorre. O Dr. Timothy Fong, do Jane and Terry Semel Institute for Neuroscience and Human Behavior da UCLA, destacou que o vício em jogos online está relacionado ao sistema de recompensa do cérebro, que é acionado pela liberação de dopamina. No entanto, ele também ressalta que, ao contrário de outros vícios, o jogo é frequentemente associado a distorções cognitivas, como a crença de que continuar jogando eventualmente levará à vitória.  

No caso das apostas online, a incerteza e a possibilidade de ganhar disparam altos níveis de dopamina. Mesmo pequenas vitórias ou o simples ato de apostar ativam esse sistema.  

A dopamina não é liberada apenas quando você ganha, mas também na antecipação do ganho, alimentando a excitação e a expectativa. Essa descarga repetida faz o cérebro buscar novamente essa sensação, criando um ciclo vicioso. Percebe que você não se vicia em ganhar, mas sempre na possibilidade de ganhar.  

Além disso, os cassinos online e apostas usam um sistema de reforço intermitente, no qual as recompensas (vitórias) ocorrem de forma imprevisível. Isso mantém o jogador sempre esperando o próximo ganho, o que é altamente viciante.  

— Ficou com vontade de jogar?  

Escrevendo este artigo e imaginando como tudo isso funciona, confesso que, apesar de assustado com a engenhosidade, fiquei com vontade de jogar. Olhe o perigo! Nem ao menos joguei e já comecei a ser envolvido. Não se pode começar.  

Voltando, porque há muito mais manipulação. O Dr. Luke Clark, da Universidade da Colúmbia Britânica, esclarece que o córtex pré-frontal, responsável por decisões racionais e controle de impulsos, é prejudicado durante o jogo compulsivo. Sob forte estímulo da dopamina e do desejo de continuar apostando, a capacidade de resistir à tentação diminui, resultando em escolhas impulsivas. Ou seja, não adianta pensar que vai parar, pois seu poder de decisão será alterado.  

Semelhante a outras formas de vício, com o tempo, o cérebro começa a desenvolver tolerância à quantidade de dopamina liberada pelas apostas. Isso significa que a pessoa precisa apostar mais ou com maior frequência para obter o mesmo nível de satisfação. A dependência emocional e psicológica faz com que o indivíduo continue apostando para evitar o desconforto e a frustração que vêm com a falta do jogo, mesmo que as perdas financeiras e pessoais se acumulem.  

Além da dopamina, muitos cassinos online e apps de apostas utilizam elementos sensoriais (sons, luzes, animações) para reforçar a sensação de vitória ou proximidade dela. Isso ajuda a manter o jogador envolvido e a aumentar o prazer, prolongando o tempo gasto no jogo.  

Esses processos criam um ciclo no qual o jogador é levado a apostar compulsivamente, gerando tanto dependência química (ligada à dopamina) quanto emocional, tornando o abandono do hábito extremamente difícil sem intervenção adequada.  

— Quando você aposta, você não ganha e o Brasil perde. 

Um estudo da consultoria KPMG Strategy&Innovation indica que a indústria de bets no Brasil teve um crescimento expressivo, movimentando entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões em 2023. Em 2024, nosso varejo perdeu R$ 103 bilhões. As apostas online podem reduzir em 11,25% a atividade varejista no país.  

Uma pesquisa da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) aponta que 46% dos apostadores já renunciaram a algum consumo para poder apostar. A Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) indica que o crescimento do mercado de apostas está impactando principalmente as compras de vestuário e serviços, como restaurantes e viagens.  O pagamento de contas também é afetado: 15% dos apostadores já deixaram de quitá-las para usar o dinheiro nas bets.  

A pressão para conter o uso do Bolsa Família para pagamento de apostas esportivas cresceu após o Banco Central revelar que beneficiários gastaram cerca de R$ 3 bilhões em transferências via Pix para casas de apostas em agosto. Dos aproximadamente 20 milhões de beneficiários, 5 milhões (25%) fizeram bets. O valor gasto por essa parcela da população pode ser ainda maior, uma vez que o cálculo não levou em consideração o uso de outros métodos de pagamento. No mesmo mês de agosto, o Bolsa Família pagou R$ 14,2 bilhões aos seus beneficiários, com valor médio de R$ 681 por pessoa.  

— Se você parar de jogar, vai ganhar muito mais. — Nisso, eu aposto contigo.

Foto: Internet/Reprodução

Comentários (7)

7 respostas para “Bets — A droga digital que destrói famílias e a economia. Por Aragão.”

Comente aqui...

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Ícone de Comentário
Ícone de Usuário

Compartilhar artigo:
A- A+

Nilda e César Maia votarão em Kelps e Kleber.

A prefeita Nilda e o presidente da Câmara Municipal de Parnamirim, César Maia, discutiram projetos para o município com o pré-candidato a deputado federal, Kelps, e com o deputado estadual, Kebler Rodrigues.

O encontro foi nesta segunda-feira, em Parnamirim, para alinhar estratégias futuras que sustentem crescimento econômico da cidade, uma das que mais se desenvolvem no RN.

Nilda e César votarão em Kelps e Kleber em 2026.

Comentários (0)

Nenhum comentário recente.

Compartilhar artigo:
A- A+

Gestão Nilda garante serviços de manutenção na rua Adeodato José dos Reis, em Nova Parnamirim.

A semana começa com trabalho nas ruas e presença da gestão Nilda solucionando mais um problema antigo. A Prefeitura irá iniciar a manutenção da calha da Rua Adeodato José dos Reis, em Nova Parnamirim, um dos principais corredores de mobilidade da região. O serviço inclui recuperação da calha, troca de grelha, reposição do paralelo e aplicação de nova manta asfáltica, garantindo mais fluidez, segurança viária e prevenção de alagamentos.

Com equipes do trânsito atuando no local e orientando motoristas sobre desvios, a intervenção reforça o ritmo de trabalho e a presença da gestão no dia a dia da cidade, cuidando da infraestrutura e mantendo o sistema de drenagem em pleno funcionamento.

A prefeita destacou o compromisso com a população: “Esse é o nosso jeito de governar: com serviço, cuidado e atenção às necessidades reais das pessoas. Estamos nas ruas para prevenir problemas, melhorar a mobilidade e dar mais tranquilidade a quem vive e circula por Nova Parnamirim.”

Comentários (0)

Nenhum comentário recente.

Compartilhar artigo:
A- A+

Parnamirim lidera vacinação no RN e consolida sucesso do Verão Protegido com mais de 3 mil doses aplicadas

A política de vacinação da gestão da prefeita Nilda transformou o verão em tempo de cuidado e resultado em Parnamirim. Com o projeto Verão Protegido, o município aplicou 3.173 doses e liderou o ranking de imunização no Rio Grande do Norte durante o período, um desempenho que rendeu, inclusive, reconhecimento do Ministério da Saúde.

Para a prefeita, o resultado reflete uma gestão que prioriza gente e prevenção: “Liderar a vacinação no estado mostra que, quando a gente cuida das pessoas com planejamento e presença, o resultado aparece. Seguiremos trabalhando para garantir mais saúde e proteção para todos os parnamirinenses”, destacou Nilda.

O encerramento da iniciativa acontece neste sábado, das 8h às 16h, na Rede Mais do Centro, oferecendo mais uma oportunidade para a população atualizar a caderneta vacinal e manter a proteção em dia.

Estarão disponíveis as vacinas HPV, destinada a pessoas de 9 a 19 anos sem dose registrada; Febre Amarela, para pessoas a partir de 9 meses até menores de 59 anos sem histórico de vacinação; Tríplice Viral, voltada para pessoas de 12 meses a menores de 59 anos sem registro e também para profissionais de saúde; ACWY, para adolescentes de 11 a 14 anos sem registro; Hepatite B, para quem não possui o esquema completo com três doses; e Antitetânica, indicada para quem também não possui o esquema vacinal completo com três doses.

As ações extramuros terão continuidade ao longo do ano, com equipes levando a vacinação para empresas, condomínios, escolas, igrejas, comércios e eventos municipais, reforçando uma política permanente de prevenção. Com números expressivos, reconhecimento nacional e forte adesão da população, o Verão Protegido se consolida como mais uma entrega de impacto da gestão, reafirmando o compromisso com uma cidade mais saudável e protegida.

Comentários (0)

Nenhum comentário recente.

Compartilhar artigo:
A- A+

Unimed Natal disponibiliza agendamento de exames pelo aplicativo

Funcionalidade permite que beneficiários realizem marcações de forma online, para exames já autorizados

A Unimed Natal passa a oferecer aos beneficiários a possibilidade de agendar exames diretamente pelo Aplicativo Unimed Natal Cliente. A funcionalidade já está disponível e permite que o processo seja feito de forma online, sem necessidade de ligação telefônica ou deslocamento até uma unidade.

O recurso é válido para exames previamente autorizados e pode ser acessado de maneira simples pelo aplicativo. Após entrar na área “Agendamento de Exames”, o usuário seleciona o procedimento autorizado, verifica as datas disponíveis e confirma o agendamento.

De acordo com o diretor-presidente da Unimed Natal, Dr. Márcio Rêgo, a novidade integra a estratégia de fortalecimento dos canais digitais da cooperativa. “Estamos ampliando o acesso aos nossos serviços por meio da tecnologia, oferecendo mais autonomia e comodidade ao beneficiário. O aplicativo é uma ferramenta que facilita o dia a dia e torna o atendimento mais ágil”, afirma.

Além da marcação, o aplicativo também permite consultar exames confirmados, acompanhar exames finalizados e realizar cancelamentos, quando necessário. A funcionalidade amplia as possibilidades de atendimento digital e reforça a proposta da cooperativa de oferecer mais praticidade no acesso aos serviços.

O Aplicativo Unimed Natal Cliente está disponível para download nas lojas oficiais. Para utilizar a funcionalidade, é necessário manter o app atualizado.

Comentários (0)

Nenhum comentário recente.

Compartilhar artigo:
A- A+

Assembleia analisa resultados e traça metas para execução de Planejamento Estratégico

Avaliar ações, prever riscos e traçar metas. Esse foi o tema central da reunião realizada nesta sexta-feira (27) por diretores da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, que tratou diretamente sobre a apuração dos indicadores referentes ao quarto trimestre de 2025 do Planejamento Estratégico Horizonte 2027.

O objetivo do monitoramento dos indicadores e iniciativas é otimizar a execução do planejamento estratégico, que foi pensado e montado para ser representativo e ter consonância com a natureza representativa da instituição. A determinação é, entre outros pontos, promover a colaboração nas principais atividades da Casa através da participação ativa da liderança dos servidores de todos os departamentos e representantes dos parlamentares, estabelecendo a conexão vital entre o corpo técnico da Assembleia e próprio Legislativo.

Durante o encontro, os técnicos da Casa discutiram junto às diretorias a análise da Gestão de Risco, expondo medidas que devem ser priorizadas com base no monitoramento realizado ao longo do ano passado. O foco é minimizar as chances de possíveis falhas na execução das atividades que serão desenvolvidas pelas diretorias ao longo do ano.

O diretor geral da Assembleia Legislativa, Augusto Carlos Viveiros, elogiou a atuação dos servidores da Casa e o cumprimento das metas estabelecidas. Para ele, o Planejamento Estratégico tem sido uma marca da gestão do Legislativo e tem trazido frutos importantes para o trabalho em prol da população.

“Essa é uma determinação do presidente da Casa, deputado Ezequiel Ferreira (PSDB), que tem como objetivo sempre a melhoria do serviço do Legislativo e o alcance das ações à população do Rio Grande do Norte. Certamente, teremos um ano de muitos desafios e tenho certeza de que a equipe vai manter o nível de excelência no cumprimentos das metas de nosso Planejamento Estratégico”, disse Viveiros.

Além do diretor-geral, também participaram da reunião o diretor Administrativo e Financeiro da Casa, Pedro Cascudo; o diretor de Gestão de Pessoas, Thyago Cortez; o diretor de Políticas Complementares, Ricardo Fonseca; o diretor da Escola da Assembleia, José Bezerra Marinho; diretora-geral da Presidência; Dulcinéa Brandão; o diretor de Gestão Tecnológica, Mário Sérgio Gurgel, além da diretora de Planejamento Estratégico, Luciana Cardoso, de toda a equipe e também da Ouvidoria e Controladoria da Assembleia.

Comentários (0)

Nenhum comentário recente.

Compartilhar artigo:
A- A+

Cristiane Dantas defende centro de referência para doenças raras em Natal

A deputada Cristiane Dantas (SDD) utilizou a sessão plenária desta quinta-feira (26) para reforçar o apelo por maior atenção e políticas públicas efetivas para as pessoas com doenças raras no Rio Grande do Norte. Em seu pronunciamento, a parlamenta enfatizou os desafios enfrentados por esses pacientes e suas famílias, especialmente na capital potiguar.

A legisladora iniciou sua fala questionando os presentes sobre a esclerodermia, uma das inúmeras condições raras existentes. Ela explicou que se trata de uma doença autoimune e crônica, caracterizada pela inflamação e endurecimento da pele, podendo afetar órgãos internos devido à produção excessiva de colágeno. Cristiane ressaltou que, no Brasil, cerca de 13 milhões de pessoas vivem com alguma enfermidade de baixa prevalência, muitas delas enfrentando dores constantes e um cenário de incerteza.

Sensibilizada com a causa e a necessidade de visibilidade, Cristiane Dantas lembrou que foi a propositora da Lei Estadual nº 11.477/2023, que institui o último dia de fevereiro como o Dia Estadual das Doenças Raras, data que será celebrada neste próximo sábado, dia 28. Acompanhando o discurso da parlamentar na galeria, estavam representantes da Associação de Doenças Raras do Rio Grande do Norte e de outras entidades de pacientes, a quem a deputada se dirigiu: “Vejam ali na galeria, não são só números, são pessoas, são mães, pais, são crianças, são pacientes que enfrentam dor, incerteza, e muitas vezes a invisibilidade do poder público”, afirmou.

A deputada destacou que a maioria dessas enfermidades é permanente, progressiva e sem cura, exigindo acompanhamento contínuo, equipe multiprofissional e acesso regular a medicamentos. No entanto, o cenário atual no estado apresenta “diagnósticos que demoram anos, falta de geneticista na rede pública estadual, déficit de reumatologistas, ausência de concurso e carência de medicamentos essenciais, levando famílias à judicialização pela UNICAT para garantir o que já deveria ser direito”. Ela classificou a situação como “inadmissível”.

Embora tenha reconhecido a importância da inauguração do primeiro serviço especializado em doenças raras em Mossoró, a representante pontuou que “não é suficiente”, especialmente porque a capital, Natal, concentra grande parte da demanda e ainda carece de um centro de referência estruturado para atendimento integral e contínuo. “Já realizei audiência pública nesta Casa para discutir essa pauta. E estamos aqui cobrando, mais uma vez, ações mais concretas”, declarou.

Entre as reivindicações apresentadas pela deputada Cristiane Dantas, constam a implantação de um centro de referência em doenças raras e crônicas em Natal, articulado à unidade de Mossoró; a contratação imediata de médicos geneticistas (atualmente há apenas um no estado); a realização de concurso público para reumatologistas; a garantia de fornecimento regular de medicamentos; a criação de linhas estaduais de cuidado; a transparência e respeito às prioridades legais; e o atendimento multiprofissional estruturado.

“Não estamos pedindo privilégios. Estamos falando de direito à saúde, previsto na Constituição. O Rio Grande do Norte precisa avançar, e precisa avançar agora”, concluiu a legisladora, enfatizando que “a luta das pessoas com doenças raras é uma luta por dignidade, e a Casa Legislativa não pode se omitir”.

Comentários (0)

Nenhum comentário recente.

Compartilhar artigo:
A- A+

O Tribunal da Estante. Por Alexandre Aragão.

A estante de um advogado com mais de vinte anos de profissão não é propriamente um móvel. É um sítio arqueológico. Há estratos bem definidos ali, de edições com folhas já amareladas pelo tempo a lombadas que ainda guardam o cheiro de café de madrugadas atrás. Mas, aproveitando o clima de Quaresma — essa época propícia a penitências, em que a gente promete desapegar do açúcar, da bebida ou dos pecados de estimação —, decidi fazer o sacrifício supremo: desapegar da minha biblioteca jurídica. Parte dela já jazia em caixas num self-storage, de onde foram resgatadas hoje, 28 de fevereiro de 2026, como provas de um processo que ninguém lembrava de ter aberto.

Estabeleci um critério rigoroso, digno de juiz de primeira instância em dia de mau humor: só fica na prateleira o livro que eu, num momento de necessidade ou insônia, puder vir a abrir novamente. O resto, para as caixas de doação. Sentença irrecorrível.

Fácil falar. Na prática, foi como julgar velhos amigos.

Peguei aquele manual pesadão, companheiro de madrugadas insones na pós-graduação. Tinha orelhas dobradas, marca-textos desbotados e carregava a memória de uma época em que eu ainda acreditava que decorar incisos era a chave para decifrar o universo. Suspirei. A legislação muda mais rápido que o humor de síndico de condomínio; um manual de processo de vinte anos atrás tem a utilidade prática de um calendário de 1998. O livro foi para a caixa. Doeu, confesso.

Porém, no meio da poeira e da melancolia, tive uma daquelas epifanias que compensam a rinite.

Os sobreviventes do meu crivo implacável não eram livros sobre as leis. Eram livros sobre a essência delas.

Enquanto lá em Brasília há ministro ressuscitando processos arquivados com a mesma naturalidade de quem pede um pão na chapa, na minha estante quem ganhava vida nova eram os pilares da justiça — os imortais, que nenhuma canetada aposenta.

Limpei a capa e reencontrei Karl Engisch. Bati um papo mudo com John Rawls. Troquei olhares cúmplices com Norberto Bobbio e dei um aceno de respeito para Herbert Hart. Eles continuam lá, imunes às vaidades de toga. Não te dizem qual é o prazo de um recurso, mas te lembram o porquê do recurso existir.

Olhando para essa turma que restou na prateleira, não pude deixar de pensar nos calouros de Direito de hoje. Vivemos a era da inteligência artificial. O aplicativo escreve petições em segundos e cospe jurisprudência mastigada.

O risco moderno não é a máquina substituir o advogado — é o estudante começar a pensar como a máquina, buscando apenas o “sim”, o “não” e a resposta pronta.

Torço para que a garotada não se contente com o fast-food jurídico dos algoritmos. Que ainda tenha o ímpeto de ler Bobbio, de brigar com Rawls, de entender que o texto frio da lei é só a superfície de algo muito maior.

Porque o Direito, no fim das contas, é apenas uma ferramenta — um martelo, um esquadro, um bisturi. O objetivo nunca foi cultuar a ferramenta, mas a obra que ela ajuda a construir: aquele negócio teimoso, antiquado e indispensável chamado Justiça.

Fechei a última caixa de papelão, espirrei duas vezes e olhei para a estante. Ficou bem mais vazia, é verdade. Mas, de alguma forma, nunca pareceu tão cheia de sentido.

Comentários (0)

Nenhum comentário recente.

Compartilhar artigo:
A- A+

O site GOV reflete a burocracia infinita do Brasil. Por Aragão.

— Será que precisaremos contratar um despachante para navegar no GOV? Contém ironia e frustração.

Vivemos a era da biometria bancária, do PIX instantâneo. No aplicativo do banco, movimentam-se quantias relevantes com poucos cliques. A validação é robusta, mas invisível. A tecnologia trabalha para simplificar.

— O site GOV é a burocracia brasileira digitalizada.

Você começa com login e senha. Insere os dados corretamente. Em tese, bastaria. Mas não basta. Pede reconhecimento facial que nunca o reconhece. Depois, confirmação pelo aplicativo. Código enviado, mas provavelmente não recebido.

— Se você conseguiu? É hora de trocar a senha.

— Outra senha? Sim, essa não serve.

— Mudou a senha? Pronto. Novo reconhecimento facial…

E, quando finalmente parece que o acesso foi concedido, surge uma nova camada de verificação — como se o sistema suspeitasse permanentemente do próprio cidadão e, ao mesmo tempo, não confiasse em seu próprio sistema de segurança.

É claro que segurança é necessária. O Estado guarda dados sensíveis. O risco de fraude existe. Mas há uma diferença entre segurança eficiente e complexidade desorganizada. Sistemas bancários lidam diariamente com valores bilionários e, ainda assim, conseguem conciliar proteção com usabilidade.

O GOV.BR, muitas vezes, lembra o comportamento dos funcionários burocratas: aqueles que não decidem, não assumem, não validam — apenas solicitam mais um documento. Mais uma autenticação.

O portal digital do governo acabou se tornando um reflexo fiel da burocracia tradicional brasileira: carimbos substituídos por captchas; filas físicas trocadas por loops de autenticação; exigências cartoriais convertidas em etapas digitais que se acumulam.

O Brasil não digitalizou o processo. Digitalizou a burocracia.

Comentários (0)

Nenhum comentário recente.

Compartilhar artigo:
A- A+

A microfísica do poder digital nas eleições de 2026. Por Fernando Rocha.

A teoria da microfísica do poder desenvolvida por Michel Foucault oferece uma chave interpretativa particularmente fecunda para compreender o papel das redes sociais nas eleições presidenciais de 2026. Se o poder não está concentrado apenas no Estado ou nas grandes instituições, mas circula de maneira capilar nas práticas, nos discursos e nos dispositivos cotidianos, então as plataformas digitais representam um dos principais territórios dessa circulação.


Diferentemente da mídia tradicional, estruturada por hierarquias editoriais, códigos de ética e mecanismos formais de controle, as redes sociais operam por meio de uma arquitetura algorítmica opaca e descentralizada. À primeira vista o poder parece disperso, pois qualquer usuário pode produzir conteúdo, comentar, compartilhar e viralizar informações. No entanto, essa horizontalidade aparente encobre uma forma sofisticada de organização discursiva, uma vez que o algoritmo seleciona, prioriza e amplifica conteúdos segundo critérios de engajamento, retenção e monetização. Trata-se de um poder que não proíbe diretamente, mas molda o campo do visível e do dizível, exatamente como descreve Foucault.


Nesse ambiente os influenciadores digitais assumem posição estratégica nessa rede capilar de poder. Eles não apenas comunicam opiniões, mas contribuem para produzir regimes de verdade junto aos seus públicos. Sua autoridade não decorre de investidura institucional, mas do capital simbólico construído na lógica da atenção. Diferentemente do jornalismo profissional, não se submetem, em regra, às mesmas exigências de verificação, responsabilidade editorial e compliance. A produção de narrativas políticas desloca-se, assim, de estruturas institucionalizadas para ecossistemas personalizados, fragmentados e fortemente orientados por estímulos emocionais.
Sob a perspectiva foucaultiana, o fenômeno ultrapassa a mera propaganda ou desinformação. O que está em jogo é a produção de subjetividades políticas. O algoritmo tende a valorizar conteúdos que despertam indignação, medo ou identificação intensa, contribuindo para ambientes polarizados. O eleitor não apenas recebe informações, mas passa a interpretar a realidade a partir de enquadramentos reiterados que definem ameaças, constroem heróis e delimitam o horizonte do aceitável. O poder atua, portanto, na formação dos próprios critérios de julgamento da realidade política.


É nesse cenário que ganha especial relevância a atuação normativa do Tribunal Superior Eleitoral por meio da Resolução TSE nº 23.610/2019, com as alterações promovidas pela Resolução nº 23.732/2024. O art. 9º estabelece que a utilização de qualquer modalidade de conteúdo na propaganda eleitoral pressupõe a verificação, com razoável segurança, da fidedignidade da informação, sujeitando candidaturas, partidos, federações e coligações às sanções previstas no art. 58 da Lei nº 9.504/1997, sem prejuízo de eventual responsabilidade penal. Trata-se de um comando que internaliza, no plano jurídico, a necessidade de responsabilidade na circulação de discursos políticos.


O art. 9º-C reforça essa diretriz ao vedar o uso de conteúdo fabricado ou manipulado para difundir fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados com potencial de comprometer o equilíbrio do pleito ou a integridade do processo eleitoral. O dispositivo proíbe também a utilização de conteúdos sintéticos gerados ou manipulados digitalmente para criar ou alterar imagem ou voz de pessoa viva, falecida ou fictícia, prática conhecida como deep fake. O descumprimento pode configurar abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação social, com possibilidade de cassação de registro ou mandato e responsabilização nos termos do Código Eleitoral.


A resolução impõe ainda deveres diretos aos provedores de aplicação, que devem adotar providências imediatas para cessar impulsionamento, monetização e circulação de conteúdos ilícitos quando detectados ou notificados. Prevê também responsabilidade solidária civil e administrativa em hipóteses de omissão na indisponibilização de conteúdos relacionados a atos antidemocráticos, desinformação que atinja a integridade do processo eleitoral, ameaças à Justiça Eleitoral, discursos de ódio ou conteúdos manipulados por tecnologias digitais em desacordo com as regras de rotulagem.


Diante das eleições de 2026, que elegerão Presidente da República, Governadores, Deputados Federais, Deputados Estaduais e Senadores, torna-se imperioso que as autoridades eleitorais mantenham especial vigilância sobre essa nova modalidade de mídia. A amplitude do pleito amplia significativamente o potencial de influência das redes digitais na formação da vontade política. Não se trata de restringir a liberdade de expressão, mas de assegurar transparência, responsabilização e proteção da integridade informacional do processo democrático.
Se o poder contemporâneo opera de forma difusa, invisível e tecnologicamente mediada, a preservação da democracia exige instituições capazes de compreender e regular essa dinâmica com equilíbrio e firmeza. A microfísica do poder hoje atravessa algoritmos, influenciadores e fluxos digitais. A integridade do processo eleitoral dependerá da aplicação efetiva das normas existentes e da constante atualização dos mecanismos de tutela do debate público.

Comentários (0)

Nenhum comentário recente.

Compartilhar artigo:
A- A+

O algoritmo e o ódio nosso de cada dia. Por Aragão.

Há mais de 500 anos a Oxford University faz uma pesquisa para eleger um termo que melhor explica o ano que passou. Em 2025, o termo foi “Rage-Bait” — isca de raiva — numa tradução livre.

A Oxford analisa milhões de artigos, textos, posts, vídeos, para entender o que está mobilizando as pessoas. Em 2024, o termo foi “Brain rot”— podridão mental. A internet queria apenas capturar sua atenção pela curiosidade mas agora quer sequestrar sua emoção.

Não compete pela sua atenção mas pela sua raiva. Produzindo conteúdo criado de propósito para te deixar irado. Provocar raiva porque a raiva engaja. Milhões de veículos de comunicação estão produzindo conteúdo exclusivamente para manipular a sua raiva para que se possa vender mais. — O amor é vida mas a raiva vende.

É a engenharia do conflito usada para construir engajamento e destruir reputações.

O conteúdo que mais circula não é o mais complexo. É o mais inflamável.

Ele simplifica temas difíceis. Recorta contextos.

Personaliza conflitos. Transforma divergência em guerra. Imaginem em ano eleitoral.

— A dopamina move montanhas.

Você se sente bem quando seu viés de confirmação é atendido a todo instante ou quando, dentro de uma bolha, curtem exatamente o que você pensa. Mas isso tem um preço. A intolerância. E a intolerância é o ovo da serpente que só faz nascer mais violência.

Nem todo conteúdo indignado é manipulação. A crítica é necessária. A denúncia é essencial. A democracia exige confronto. Mas quando a indignação deixa de ser reação e passa a ser estratégia de negócio, ela deixa de ser expressão. Vira produto.

A pergunta não é se a raiva vende. Vende. Mas a que preço? Até quando vamos aceitar que o combustível do debate público seja a irritação diária?

O primeiro passo é você identificar quando querem acionar esse sistema em você. O algoritmo vai atender ao que te estimula. Sinalize para ele o que gostaria de ver. É só engajar com o conteúdo que você acredita possa ser melhor para seu bem estar e não se contente com a dopamina barata.

— Recuse a isca.

Comentários (0)

Nenhum comentário recente.

Compartilhar artigo: