Ontem fiz algo que há muito tempo não fazia: engraxei meus sapatos. Dez pares, para ser exato. Lembrei imediatamente – e durante todo o tempo – de vovô Adalberto. Até senti sua presença, confesso. Normal. Afinal, assim como atender seus pacientes e tocar piano, engraxar sapatos era umas das coisas que ele mais gostava de fazer.
Parei para refletir sobre a simbologia por trás desse hábito. Lembrei de quando vovô me chamava para sentar ao seu lado e ajudá-lo com os sapatos. Eram muitos pares, a maioria brancos, como eram os sapatos dos médicos de antigamente. Depois vinham os marrons e os pretos. Eu o ajudava, ele me ensinava e me corrigia.
Extraio daquilo algumas lições:
1. É necessário “parar”, mesmo que seja apenas para engraxar os sapatos. E tem sido difícil “parar” nesses dias acelerados de uma vida desenfreada, ansiosos que estamos sempre por aprovação e consumo. Um dia já não é suficiente para tantas coisas que assumimos fazer. Mas, afinal, o que é de fato importante para nós?
2. É preciso limpar os sapatos, tirar a poeira, recuperar e renovar o brilho. E tudo isso se aplica a nós mesmos: quando fazemos isso com os sapatos, é como se fizéssemos com nossa alma.
3. Sempre é tempo de “cuidar” do que é nosso. Muitas vezes aquele sapato velho, que aparentemente não nos serve mais, só precisa de cuidado e atenção para brilhar de novo. Deveríamos fazer isso com tudo que está a nossa volta, especialmente com pessoas que amamos.
4. Não é preciso esfregar com força o sapato. Basta ter leveza e precisão para obter o brilho ideal. Segurar do jeito certo, lustrar com boa vontade, sem pressa, e sem preguiça. Ao me corrigir inúmeras vezes, Dr. Adalberto me ensinava que era preciso dar o melhor de nós em tudo que fazemos.
Enfim, antes de dormir e depois de colocar pra dormir meu pequeno João – o bisneto de Adalberto que, eu espero, possa se tornar também um eterno aprendiz de engraxate – decidi compartilhar com você essa reflexão, amigo leitor.
P.S. *Aprendi também que tenho sapatos pra cacete, e que minha coordenação com a mão esquerda é uma merda…*
Luis Marcelo Cavalcanti é Advogado e Procurador do Estado.
Comentários (1)
Uma resposta para “É do RN. Agência Criola fica entre as 5 do Brasil com mais peças finalistas no Festival Nacional de Propaganda.”
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