Arquivo de Opinião - Página 5 de 30 - Blog do Aragão Arquivo de Opinião - Página 5 de 30 - Blog do Aragão

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Neoenergia Cosern não paga aluguel ao RN para instalar seus postes e fios. Por Aragão.

A Neoenergia Cosern cobra dos consumidores que produzem energia solar pelo uso da sua rede. Usou, pagou. Não me refiro ao consumo de energia elétrica — apenas ao fato de utilizarmos sua rede quando injetamos a energia gerada pelos painéis solares. É a chamada tarifa de uso do sistema de distribuição, conhecida no setor como TUSD — que remunera postes, cabos, transformadores e toda a engrenagem física que mantém a eletricidade circulando.

Está na lei.

Mas existe um contrassenso enorme. Seguindo esse mesmo raciocínio, a instalação e o uso desses milhares de postes e fios em espaço público não deveriam pagar aluguel também ao povo? Isto é, ao Estado? Não seria o mínimo a se fazer em contrapartida pela benesse de ter o RN inteiro em suas mãos, o que se traduz em quase meio bilhão de reais de lucro por ano? Uma área enorme utilizada e não remunerada.

Infelizmente, a Neoenergia não paga porque está protegida pela lei. Mas é imoral. Por isso mesmo devemos questionar as leis. Boa parte da legislação do passado caiu por se tornar insustentável.

Precisamos evoluir a legislação. Já esteve nas leis brasileiras que mulheres não poderiam votar, que poderíamos escravizar pessoas; que era proibido se divorciar. Questionamos, pressionamos e mudamos as leis.

A Neoenergia presta um bom serviço, mas a relação atual com o consumidor é muito desigual.

De um lado, o cidadão paga para usar a rede. Do outro, a rede utiliza o espaço coletivo sem que esse custo seja discutido com a sociedade.

O STF proibiu municípios de cobrarem taxa pelo uso do solo por postes de energia. Mas nada impede que o tema seja enfrentado politicamente. Cabe ao Congresso discutir se o uso massivo do espaço público pode gerar contrapartida. 

Esse debate envolve toda a população. Mas por que a classe política não entra nesse debate? O que a classe política teme?

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A adjetivação como método. Por Fernando Rocha.

Há uma frase do pensador inglês Bertrand Russell (1872–1970) que atravessou o tempo com a força das advertências simples e cortantes:

“Primeiro, eles fascinam os tolos. Depois, amordaçam os inteligentes.”

Russell, que viveu as convulsões ideológicas do século XX, parecia compreender que os regimes autoritários não nascem apenas da violência explícita, mas de um processo psicológico e social mais sutil e sedutor.

Vivemos tempos em que a política deixou de ser arena de ideias para se tornar espetáculo de adjetivos. A adjetivação como método tornou-se estratégia recorrente de disputa pública. As palavras já não descrevem, elas buscam estigmatizar, ferir e excluir. Lulistas, bolsonaristas, comunistas, direitistas, esquerdistas, lavajatistas e tantos outros istas são lançados como pedras. O rótulo substitui o argumento. A caricatura ocupa o lugar do diálogo.Além de gerar mais ódio, essa prática é profundamente nociva ao pluralismo e aos valores democráticos, que pressupõem a convivência entre divergências, o reconhecimento da dignidade do outro e a defesa de direitos, sobretudo, para quem pensa diferente.

É nesse terreno que floresce o primeiro movimento, a fascinação.
Não a fascinação estética do belo, mas a sedução das massas. Discursos simplificados, certezas absolutas, promessas redentoras. O mundo complexo é reduzido a uma narrativa fácil, de um lado os puros, do outro os inimigos. Fascinar é capturar pela emoção antes que a razão tenha tempo de respirar. É oferecer pertencimento, identidade e indignação em doses generosas e slogans memoráveis.

Quando a plateia já está encantada, entra em cena o segundo movimento, o amordaçamento.
Não necessariamente com censura formal, mas com a asfixia simbólica do pensamento crítico. Intelectuais são ridicularizados. Especialistas são desqualificados. Quem pondera é acusado de traição. A inteligência passa a ser vista como obstáculo e não como virtude. Silencia-se não apenas a voz, mas a própria legitimidade de pensar diferente.

A advertência de Russell sugere que a origem do fascismo não reside apenas na violência aberta, mas nesse processo gradual e quase imperceptível, primeiro a sedução, depois a supressão. Primeiro o aplauso apaixonado, depois o silêncio constrangido. A adjetivação como meio de excluir.

O mais inquietante é que esse mecanismo não pertence a um único campo ideológico. Ele pode emergir sempre que o pluralismo é tratado como fraqueza e a divergência como ameaça. Sempre que direitos passam a valer apenas para os nossos e deixam de ser universais, a democracia começa a se estreitar.

Talvez o antídoto esteja justamente no que o fascínio despreza e o amordaçamento teme, a dúvida honesta, o debate respeitoso, a defesa incondicional da dignidade humana, inclusive de quem discorda de nós. O respeito à tolerância.

No fim, sociedades livres não se sustentam sobre a sedução das massas nem sobre o silêncio imposto aos críticos. Sustentam-se sobre a coragem de conviver com a diferença.

Fernando Rocha é Procurador da República e Mestre em Direito Internacional.

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O Leão de pelúcia e as cinzas da democracia

Diz a tradição que a Quarta-feira de Cinzas é o dia em que as máscaras caem e a realidade volta a bater na nossa porta. Mas no Brasil, você sabe, a fantasia é o nosso traje de gala o ano inteiro. E foi justamente nessa quarta-feira ingrata que o presidente da Unafisco, Kleber Cabral, deu uma entrevista para a GloboNews e soprou no nosso cangote a ressaca definitiva: “É menos arriscado fiscalizar o PCC”.

O que sobrou nos escombros do nosso bloco não foi confete, mas as cinzas da nossa própria democracia. Veja bem a que ponto de desmando nós chegamos! O crime organizado, com seu tribunal paralelo, virou um ambiente de trabalho mais seguro do que ousar cruzar o CPF de quem habita o Olimpo de Brasília. Como alertaria o saudoso Millôr Fernandes, “Democracia é quando eu mando em você, Ditadura é quando você manda em mim”.

O velho Leão da Receita, outrora o terror implacável de nós, pobres mortais, sofreu uma mutação genética na Quarta de Cinzas: virou um gatinho de pelúcia. Foi adestrado para ronronar no colo das excelências e mostrar as garras apenas para você, eu, o cidadão comum que comete o crime hediondo de errar uma vírgula na declaração do imposto.

Aí, no meio dessa vergonha institucionalizada, o auditor, encurralado, lança o grito de desespero: “Recorrer a quem?”. É a suprema sinuca de bico da República. O servidor que prestou concurso para proteger o país descobre, no meio da avenida, que o Estado tem dono. E o dono não é ele, muito menos você.

Se o auditor olha para o Executivo, ao qual está vinculado, encontra uma chefia de mãos atadas, encolhida no canto, mais preocupada em entregar a cabeça dos seus do que em defender a autonomia do órgão. Se ele olha para o Judiciário, topa justamente com a fonte do seu terror. A decantada “separação dos Poderes” virou apenas um bloco de sujos — um cordial acordo de cavalheiros para que ninguém incomode o sossego e os sigilos alheios.

No fim das contas, a manifestação da Unafisco serve para nos lembrar que as instituições brasileiras até estão funcionando, mas apenas como alegorias de um enredo macabro. A lei continua dura e implacável para todos, desde que o “todos” não inclua quem manda. 

Terminamos a festa assim: de um lado o PCC, com regras claras; do outro, os intocáveis. E o cidadão, como sempre, no fim do desfile, apenas varrendo as cinzas do Carnaval.

Alexandre Aragão é advogado, com especialização em direito tributário pelo IBET e em direito empresarial pela FGV/RJ.

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Pai covarde sacrifica os filhos em oferenda ao Deus da vingança. Por Aragão

O Inferno de Dante Alighieri é formado por círculos que descem em direção ao centro da terra. O 9º círculo é o mais profundo e sombrio — é onde fica Lúcifer — e está reservado para os traidores da família.

Thales Naves Alves Machado foi, realmente, um covarde. Muito mais traidor do que traído. Um homem fraco que não suportou existir sem a esposa ou sem a fidelidade que acreditava possuir. Um homem que traiu a humanidade quando amputou o futuro dos próprios filhos — filhos que ele dizia amar, mas que transformou em arma de vingança.

Quando um pai destrói os próprios filhos para atingir a esposa, ele não comete apenas homicídio. Ele trai o pacto mais elementar da existência: o de proteger sua prole indefesa — o que Deus e a natureza colocaram nas suas mãos sob sua guarda.

— Qual culpa aquelas crianças carregavam?

— Nenhuma.

É evidente que relações humanas são complexas. A traição conjugal, quando acontece, é dolorosa e dilacerante. Relações que chegam a esse ponto muitas vezes já estavam apodrecidas por dentro. Separar-se teria sido o caminho civilizado. Mas nenhuma falha conjugal — nenhuma — pode tangenciar a barbárie de destruir a própria descendência e a própria vida.

Assusta perceber que o mal raramente tem aparência monstruosa. Ele trabalha, tem amigos, está em grupos de WhatsApp, ocupa cargos públicos, participa de reuniões e sorri em fotografias. A rotina trivial pode esconder tempestades morais silenciosas.

— E pessoas assim, psicopatas, circulam entre nós.

Não podemos mais continuar confundindo posse com amor, orgulho com honra e controle com cuidado. Enquanto não desenvolvermos um olhar mais atento sobre os sofrimentos mentais daqueles que nos cercam — seja para ajudá-los antes que cruzem o limite da barbárie — qualquer um de nós poderá ser a próxima vítima.

— Às vezes penso que o inferno é aqui.

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Quando o Mounjaro quer tirar o peso da consciência. Por Aragão.

Estamos virando uma geração que quer emagrecer sem mudar hábitos, ser feliz sem enfrentar frustrações e resolver crises com salvadores da pátria?

Somos a geração dos atalhos… 

Sempre seduzidos pelo menor esforço. Seja o salvador da pátria que promete resolver sozinho problemas que levaram décadas para se formar. O amor à primeira vista que dispensaria convivência, diálogo e maturidade emocional; o antidepressivo que promete paz e alegria; ou a dieta milagrosa que garantiria transformação sem disciplina. Em todas essas narrativas existe um elemento comum: a promessa de redenção sem processo.

— Esse é um problema que a sociedade insiste em empurrar com a barriga… mas bem sequinha.

O Mounjaro, para muitos, deixou de ser tratamento e passou a ser símbolo de uma fantasia contemporânea: a possibilidade de mudar o corpo sem enfrentar o estilo de vida que construiu aquele corpo. É como se a seringa pudesse negociar com a biologia aquilo que a rotina insiste em ignorar.

Medicamentos que alteram o metabolismo, o apetite e a resposta hormonal não são neutros. Eles exigem adaptação alimentar, acompanhamento clínico e, principalmente, mudança comportamental para que os resultados sejam sustentáveis. Quando utilizados de forma recreativa, sem prescrição médica, e como substitutos de hábitos — e não como aliados deles — o risco de efeito rebote, perda de massa muscular, dependência psicológica e complicações médicas aumenta. Pancreatites e mortes associadas ao uso do medicamento já começam a ser noticiadas.

Certa vez vi um amigo enfrentar uma enorme torta de chocolate e, diante do meu olhar de espanto, respondeu com naturalidade:

— Não tem problema. Mais tarde tem Mounjaro.

— Tá triste? Venvanse. Nervoso? Rivotril. Gordo? Mounjaro. Crise no país? Salvador da pátria.

O problema surge quando passamos a acreditar que é possível eliminar completamente o custo das transformações. A biologia, a psicologia e a própria história costumam demonstrar o contrário. — Um dia, a conta chega.

Porque nenhuma caneta injetável foi capaz, até hoje, de substituir o processo de carregar — e compreender — o peso das próprias escolhas.

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Por que eu idolatro Jesus Cristo? Por Fernando Rocha.

Este não é um texto de conteúdo religioso, nem pretende ter qualquer cariz teológico. Não discuto dogmas, milagres ou verdades de fé. Falo, antes de tudo, do exemplo de vida. Da força ética e humana de uma trajetória que atravessou séculos e inspirou algumas das pessoas mais admiráveis da história.

Eu idolatro Jesus Cristo pelo modo como viveu e pelo tipo de humanidade que encarnou. Pela simplicidade radical, pelo altruísmo sem cálculo e pelo amor ao próximo exercido de forma concreta, desinteressada e, muitas vezes, incômoda. Um amor que não escolhe destinatários convenientes, mas alcança pobres, doentes, marginalizados, traídos, inimigos e até aqueles que o condenaram.

Esse exemplo transbordou o próprio tempo histórico e serviu de referência para figuras que, cada uma a seu modo, tentaram viver a mesma lógica de doação. Pessoas que transformaram compaixão em ação, simplicidade em método e cuidado com o outro em projeto de vida. Todas inspiradas, direta ou indiretamente, pela mesma ideia fundamental: o valor de uma existência se mede pelo bem que ela produz.

Há também um aspecto profundamente revolucionário para sua época: a forma como Jesus enalteceu e dignificou as mulheres, rompendo com uma tradição estruturalmente machista. Em um contexto em que a mulher era frequentemente invisibilizada, ele a colocou no centro da experiência humana e moral. Maria, sua mãe, é apresentada como símbolo de coragem e dignidade. Maria Madalena surge como amiga leal, presente quando muitos haviam fugido. Não por acaso, são mulheres as primeiras testemunhas dos acontecimentos decisivos de sua história, um detalhe que desafia frontalmente a mentalidade social e jurídica daquele tempo.

Mas é talvez na sua postura contra a mercantilização da fé que meu apreço se torna ainda mais vigoroso. Jesus combateu de forma enfática os chamados mercadores do templo. Foi explícito, duro e inequívoco ao denunciar a transformação da fé em negócio, do sagrado em produto e da esperança alheia em fonte de lucro. 

Ali, ele deixa claro que há algo profundamente errado, moralmente errado, em enriquecer à custa da crença, do medo ou da fragilidade das pessoas. Apropriar se do nome do Pai para mercancia, para acumulação de riqueza ou poder, é apresentado como desvio grave, incompatível com qualquer ética minimamente honesta.

Essa crítica é de uma atualidade quase desconfortável. Vivemos um tempo em que proliferam mercadores da fé modernos, que vendem milagres, prometem prosperidade, negociam bênçãos e transformam a espiritualidade em modelo de negócio altamente lucrativo. O que deveria ser consolo vira produto. O que deveria ser serviço vira exploração. O que deveria ser simplicidade vira ostentação. Nada parece mais distante do exemplo de Cristo do que a fé convertida em instrumento de enriquecimento ilícito, travestido de devoção.

Os próprios relatos bíblicos reforçam essa ética. Jesus lava os pés dos discípulos para ensinar que autoridade é serviço, não dominação. Multiplica o pão para que ninguém passe fome, não para exibir poder. Conta a parábola do bom samaritano para mostrar que o verdadeiro amor não reconhece fronteiras, identidades ou conveniências. Amar o próximo, ali, é amar sem esperar retorno, sem aplausos, sem lucro.

Nada disso exige fé para ser admirado. Trata se de uma proposta de humanidade profundamente atual. Em um tempo em que tantos idolatram mitos vazios, ególatras profissionais e narcisistas de redes sociais, figuras que vivem da própria imagem, da autopromoção e da validação constante, o exemplo de Cristo vai na contramão. Ele não buscou fama, não acumulou riquezas, não construiu palácios. Deixou um padrão ético exigente: a bondade como escolha diária, a simplicidade como forma de resistência e o cuidado com o outro como medida de grandeza.

Por isso, eu idolatro Jesus Cristo. Não como objeto de culto abstrato, mas como referência de vida. Porque, quanto mais barulhento, vaidoso e mercantilizado se torna o mundo, inclusive no campo da fé, mais revolucionária se revela a ideia de viver com simplicidade, honestidade, respeito e amor genuíno ao próximo.

Fernando Rocha é Procurador da República e Mestre em Direito Internacional.

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Flávia Camilla 08 fev 2026

Bela e necessária reflexão!

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Mundo em pânico, mas no Brasil o carnaval. Por Fernando Rocha.

O mundo vive hoje uma tensão que não se via desde os dias mais duros da Guerra Fria. Potências se encaram com discursos de chumbo e tarifa, sanções econômicas ocupam o lugar de mísseis, enquanto a ameaça, explícita ou velada, de uma guerra nuclear volta a frequentar o vocabulário dos chefes de Estado. O presidente dos Estados Unidos fala em refundar a ordem internacional não por pactos, mas por intimidação. A política global parece novamente governada pelo medo, pela dissuasão bruta e pela lógica do confronto permanente.

Ainda assim, em plena travessia desse cenário quase distópico, o Brasil se prepara para quatro dias de carnaval.

Não se trata de dizer que isso seja bom ou ruim. Trata-se apenas de reconhecer que isso é singular. Profundamente singular. Enquanto o mundo prende a respiração diante de ameaças geopolíticas, o país afina o surdo, testa o trio elétrico, ensaia passos de frevo e discute fantasia, bloco e desfile. O contraste não é apenas curioso, é quase um manifesto involuntário.

Talvez o carnaval seja mais do que uma festa. Talvez seja um símbolo nacional. Um gesto coletivo que desafia a lógica da gravidade permanente. Um rito em que o Brasil, consciente ou inconscientemente, escolhe suspender o peso do mundo por alguns dias. Não é simples alienação, nem resistência organizada. É outra coisa. Algo que talvez só Freud explique, um mecanismo psíquico coletivo de sublimação, no qual a angústia global é convertida em ritmo, corpo e excesso.

O samba, o axé e o frevo não negam as mazelas. Não fingem que o mundo está bem. Apenas as desprezam solenemente por um instante. Não porque deixem de existir, mas porque, diante de um mundo que insiste em se levar excessivamente a sério, dançar pode ser a forma mais brasileira de afirmar a própria existência. É como se o país dissesse que o caos é global, o medo é real, mas ainda assim haverá batuque, suor, cor e rua tomada.

Talvez seja exatamente isso que desconcerta o resto do mundo. Enquanto a ordem internacional range, o Brasil dança. E, como dizia Nietzsche, aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música. O carnaval, então, não é negação da realidade, mas a expressão de uma escuta própria, de um ritmo que não se submete à cadência do medo global. Pode soar loucura para quem observa de fora, mas é, antes de tudo, linguagem cultural.

O carnaval não resolve crises internacionais, não impede guerras nem dissolve tarifas. Mas revela algo essencial sobre o Brasil, uma cultura capaz de produzir alegria em meio à tensão máxima. Não como fuga covarde, mas como afirmação identitária. Um país que dança não porque ignora o abismo, mas porque aprendeu, à sua maneira, a encará-lo em movimento.

Fernando Rocha é Procurador da República e Mestre em Direito Internacional.

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O tribunal de um homem só. Por Luis Marcelo Cavalcanti.

Não faz muito tempo, poucos brasileiros sabiam dizer os nomes dos 11 ministros do STF. O que era bom sinal, que decisões não devem ter dono, são do tribunal. E nem deve o juiz procurar holofotes ou manifestar opinião política ou pessoal publicamente, sobretudo quando envolvam processos sob seus cuidados. Como lembra Eugênio Esber (Revista Oeste, 02.01.2026), “brasileiros que hoje têm 25 anos de idade vieram ao mundo quando seus pais não sabiam citar o nome de um único ministro do STF.”

Nos últimos cinco anos, porém, alguns nomes assumiram um protagonismo midiático, com destaque para Barroso, Toffoli, Dino e André Mendonça. Mas nenhum juiz do país assumiu e misturou tantos papéis e funções como Alexandre de Moraes. De “mediador” de crise envolvendo decretos sobre IOF a “fiscal do fiscal” no caso da sindicância instaurada pelo CFM para apurar condutas médicas, Moraes tem relatado, avocado ou instaurado de ofício quase todos os processos politicamente relevantes para o país. Como se fosse ele próprio o Supremo, e fosse o Supremo apenas ele. Onde estão os demais ministros, de quem ninguém mais ouve falar? De duas, uma: ou estão julgando com discrição, como exigem a Constituição e a LOMAN, ou não estão recebendo processos politicamente relevantes, dada a inexplicável superconcentração no próprio Moraes. O que é duplamente ruim: porque reúne nas mãos de um único juiz o poder de ditar os rumos dos temas centrais para a nação, e desvirtua por completo o sistema de decisões coletivas, transformando nosso mais importante colegiado em um conglomerado (único no mundo) de decisões monocráticas perpétuas. Se já é ruim (à luz do sistema representativo democrático) que os rumos do país sejam definidos pelo Judiciário, mais trágico ainda é que tais decisões sejam de um só juiz.

José Paulo Cavalcanti Filho apresenta estudo riquíssimo sobre o número de processos julgados pelas supremas cortes no ano passado: Estados Unidos, 80 casos; França, 80; Inglaterra, 82; Alemanha, 90; Canadá, 44 (Jornal do Commercio, 12.12.2025). 

No Brasil, o STF recebeu 85.201 processos em 2025, produzindo 116.170 decisões, das quais 93.559  foram individuais, segundo relatório do próprio STF. Pasme, caro leitor, mais assustador do que o volume de processos julgados é saber que mais de 80% deles foram decididos monocraticamente.

José Paulo nos lembra ainda que decisões monocráticas existem só no Brasil. “E em nenhum outro dos 193 Estados Membros da ONU. Nos Estados Unidos e na Grã-bretanha, em situações de extrema gravidade e urgência, quando não esteja reunida a corte, pode o ministro plantonista decidir. Mas essa decisão fica sem aplicação, até que seja convocado o plenário para deliberar sobre o caso. E vale, apenas, se a maioria (usualmente a totalidade) da Corte aprovar.

Ninguém decide sozinho, pois, essa é a regra de ouro para todos os tribunais do planeta.”

Pior é ver que notícias recentes sugerem certo grau de envolvimento nada republicano entre ministros, parentes, esposas e bancas (e bancos) de advocacia, o que me remete à frase atribuída a Benjamin Disraeli, ex primeiro ministro do Reino Unido, de que “quando os homens são bons, as leis são desnecessárias; quando são maus, elas são inúteis.”

Por isso mesmo Piero Calamandei, jurista italiano do início do XIX, afirmava: “a opinião pública está convencida (e talvez não sem razão) de que tomar parte na política significa, para os juízes, renunciar à imparcialidade na justiça.” (Eles, os juízes, vistos por um advogado).

É, meu amigo leitor, não é fácil compreender o Brasil. Menos ainda explicar esse país para amadores, como lembra Karnal. É difícil explicar “que a independência foi liderada por um herdeiro da Coroa Portuguesa (Dom Pedro I)”; que “a proclamação da República foi defendida por um monarquista convicto (Deodoro da Fonseca);”que “a democracia foi implantada com o apoio decisivo de um ex simpatizante do regime militar (José sarney)”. E (digo eu) que Moraes é professor de direito constitucional…

Luis Marcelo Cavalcanti é Procurador do Estado e Advogado.

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Juberto Lima Pereira 05 fev 2026

Pois é Doutor essa capacidade de um único ministro suspender leis aprovadas pelo Congresso parece distoar do nosso Sistema....E em relação a suspensão do pagamento da indenizações/Devolução dos valores por parte de Processados não deveria subir ao pleno?

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Lucrando 1 Midway a cada 3 anos, a Neoenergia atrasa as compensações e tenta renovar sua concessão por mais 30 anos. Por Aragão.

— Lucro em 2022: R$ 581 milhões;

— Lucro em 2023: R$ 587 milhões;

— Lucro em 2024: R$ 557 milhões.

Totalizando R$ 1,72 bilhão de lucro em apenas três anos.

O Midway Mall foi vendido por R$ 1,61 bilhão. Isto é: sobrariam ainda mais de R$ 100 milhões.

Talvez seja por isso que seu político preferido não questione a Neoenergia.

Talvez seja por isso que a mídia tradicional nada fale.

Mas é exatamente por isso que este blog continua.

A empresa lucra demais, e o povo amarga prejuízo pela não compensação da energia solar. Continuamos sendo a voz de 230 mil beneficiários da energia solar no RN.

Talvez a Neoenergia, querendo melhorar ainda mais — ainda mais, ainda mais — seu resultado financeiro ao final do ano, tenha segurado a compensação dos créditos de energia solar gerada.

Apenas talvez.

Será que o Ministério de Minas e Energia (@minaseenergia) sabe o que está se passando no RN?

Será que o respectivo ministro, Alexandre Silveira de Oliveira (@alexandresilveiramg), sabe o que está acontecendo no estado?

Acho que não.

Se soubessem das inúmeras queixas, das dificuldades de contato, das complicações para compensar a energia gerada pelas usinas solares e de tantas outras questões que oprimem o povo do RN, talvez exigissem respostas antes de assinar a renovação da concessão por mais 30 anos.

— O Procon Natal já entrou na questão.

— O Ministério Público já entrou na questão.

Agora é a sua vez.

Em uma democracia, a cobrança também acontece nos espaços públicos — inclusive nos perfis oficiais de quem decide: o ministro Alexandre e o Ministério de Minas e Energia.

Chegou a hora de você dizer que não concorda com o que estão fazendo com você.

Não é amanhã. Não é semana que vem.

A hora é agora.

Na democracia é assim: a voz do povo é a voz de Deus.

Mas é preciso falar para ser ouvido.

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Num país que tem que prender uma caneta Bic na corrente, pode exigir o quê da classe política? Por Aragão.

Estou viajando e quando passei por Portugal, uma situação me chamou muito atenção.

Comprei 03 chips por 75 euros para uso ilimitado de dados na Europa. Equivale a aproximados 487 Reais. Falei que deixaria os chips com ele e iria pegar minha carteira, pois tinha esquecido. — Ele respondeu: “De forma nenhuma. Pode levar os chips eu sei que você voltará e se não voltar eu não irei atrás do senhor”.

Foi quando me lembrei da nossa bic presa na corrente.

— Que pais estamos vivendo e no que nossa sociedade se transformou?

Lembrei dos patinetes quando chegaram em Natal. Lembrei do Banco master. Lembrei da Lavajato. Lembrei de tanta coisa.

Exigir ética apenas de cima, ignorando o colapso embaixo, é conforto moral. A caneta acorrentada não é só prevenção: é confissão. Confissão de que normalizamos o desvio, administramos a falta de civilidade.

Algo precisa ser feito com o emprenho de todos. Seja nas próximas eleições seja em cada contato que tivermos com o próximo.

Mesmo inseridos nesse caos naturalizado, Ainda assim, isso não nos exime de exigir dos governantes políticas públicas sérias, contínuas e verificáveis de investimento em educação. Não como slogan de campanha, mas como projeto de longo prazo. Porque é na educação — e apenas nela — que se rompe o ciclo em que a desconfiança é o padrão das relações.

Certamente o problema não seja apenas quem nos governa.

Talvez seja o país que, há muito tempo, aprendeu a acorrentar objetos — e a soltar princípios.

Mas reconhecermos a realidade é o primeiro passo para as mudanças.

— Muda, Brasil.

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